quinta-feira, setembro 06, 2007

Ignorância - Milan Kundera

Outro dia escrevi que li vários livros do Kundera e que não me lembrava dos enredos das histórias, era verdade, mas após ler Ignorância, acho que posso explicar um pouco melhor a razão de meus "brancos". As histórias do autor giram em torno de relacionamentos, identidade e sentimentos, são eles que ocupam o papel principal e , desta forma, torna-se difícil definir um "enredo" para seus romances. Agora, uma coisa tenho que admitir, Kundera escreve belamente. Neste livro, ele narra o retorno de Irena e de Josef à República Tcheca após vinte anos de exílio em outros países da Europa e mostra como as pessoas que os conheceram olham para os dois como se fossem uma espécie de desertores e procuram fazer de conta que os últimos vinte anos de suas vidas não existiram. Kundera também fala sobre como muito nos relacionamentos humanos é baseado em equívocos:

"Imagine os sentimentos de duas pessoas que se encontram novamente após muitos anos. No passado, elas ficaram algum tempo juntas e portanto acham que estão unidas pela mesma experiência, pelas mesmas recordações. Pelas mesmas recordações? É aí que os mal-entendidos começam: elas não possuem as mesmas recordações; cada uma retém duas ou três pequenas cenas do passado, mas cada uma possui as suas próprias recordações, elas não são parecidas, elas não se cruzam; elas não são comparáveis nem mesmo em termos de quantidade: uma pessoa lembra-se da outra mais do que esta se lembra dela; primeiro, porque a capacidade da memória varia entre os indivíduos (uma explicação que cada uma delas acharia ao menos aceitável), mas também (e isso é mais doloroso de se admitir) porque elas não possuem a mesma importância para cada uma delas. Quando Irena viu Josef no aeroporto, ela lembrava-se de cada detalhe de sua aventura do passado; Josef não se lembrava de nada. Desde o primeiro instante, seu encontro estava baseado em uma injusta e revoltante desigualdade."


6 comentários:

"Eis o melhor e o pior de mim... disse...

É verdadeiramente um belo livro...

Andréa disse...

Karen,
Que bela dica. Eu adoro o Kundera mas não li este não.... a história parece bem bacana....
Vou ler e te falo.
Bjs
Andréa

Karen disse...

Maria Helena, é verdade!

Andréa, gostei bastante deste livro, leia sim!

Daniel disse...

Karen, desculpa o "comentário", é que não encontrei seu e-mail, e não quis deixar essa mensagem em seu outro blog, mais acessado.

É o seguinte: estou montando um post especial de fim de ano, e queria que você participasse. Estou pedindo pra algumas pessoas (jornalistas, escritores, blogueiros) escreverem um, dois ou três parágrafos sobre o melhor livro que elas leram neste 2007. A lista, quando pronta, vai servir de dica de leitura pro pessoal que visita o blog, além de ser bem interessante em si.

Então, me escreve aí, pode ser? Me manda no cararock@bol.com.br

sonia disse...

Esse comentário da Karen aqui veio bem a calhar. Estou passando por uma experiência difícil de encarar, a respeito de uma amizade que está se desvanecendo sem que ao menos eu saiba a razão. Acho que eu valorizei a pessoa mais do que ela me valorizou. Que triste!

Anônimo disse...

Kundera é demais!Estou a ler o terceiro dentre tantos que pretendo devorar... Leiam, leiam, leiam Kundera.
É realmente difícil explicar o enredo das histórias, mas encantadoramente belo identificar -permita-me roubar por uma frase tuas reflexões- os sentimentos, identidades, relacionamentos apresentados em 'acontecimentos e episódios' dest'"A Imortaidade"s literárias.