quarta-feira, dezembro 24, 2008

O jardim adormecido de Riichi Yokomitsu

(Foto de Riichi Yokomitsu na contracapa da coletânea)
Primeira leitura “solo” de um livro em japonês, a maioria dos livros nessa língua que li antes já tinham sido lidos em traduções, então, eu sempre tinha uma idéia geral do enredo. O autor chama-se Riichi Yokomitsu (1898-1947), eu nunca ouvi falar dele por aqui e há bem poucas traduções de suas obras, quase nada, as informações sobre o autor também são sumárias na internet.

O título da história poderia ser traduzido como “Jardim adormecido”, ele é constituído de dois kanjis, o de dormir (寝) e o de jardim/parque (園), os dois juntos não formam uma palavra única (pelo menos não achei nos dicionários que consultei), por isso, traduzi assim.

A história se passa na época da depressão de 30 (pensando na conjuntura econômica atual, não pude deixar de achar a coincidência irônica) e é sobre vários triângulos, quase quadriláteros, amorosos envolvendo várias pessoas de uma classe comercial abastada. Nanae é casada com Niwa, mas ama Ha, um amigo da família. Nanae também é amada por Taka, um jovem estudante que, como bom Don Juan, não deixa de “tirar uma casquinha” roubando beijos de todas as personagens femininas que cruzam seu caminho, entre elas, Aiko, parente de Nanae. Aiko, por sua vez, tem uma queda por Niwa, marido de Nanae.

As paixões e flertes não vão a lugar algum devido às convenções sociais e também porque Ha, que poderia tentar fazer com que Nanae se divorciasse, está em sérios apuros financeiros e perde toda a sua fortuna com a depressão. Outro fator que complica a situção é o fato de Nanae acertar um tiro acidental em Niwa durante uma caçada a javalis promovida pelo clube de tiro de que fazem parte. A culpa faz com que ela renuncie a se aproximar de Ha.

Os personagens são infelizes e suas vidas não parecem ir para lugar algum, eles estão mesmo “anestesiados” em um “Jardim adormecido”.


quarta-feira, novembro 19, 2008

Lendas e fábulas - Selma Lagerlöf

Devagar, bem devagar, li uma tradução alemã do livro de lendas e fábulas da Selma Lagerlöf, uma escritora sueca e a primeira mulher a ganhar o Nobel de literatura em 1909. Suas histórias são povoadas por sonhos, premonições, goblins, espíritos e outros seres sobrenaturais, muita coisa inspirada nas histórias e lendas que ouviu durante sua infância.

Sempre tive uma grande paixão por lendas, contos, fábulas e mitos e era natural que gostasse deste livro, claro que as histórias não são doces e nem sempre têm finais felizes, ao contrário, muitas vezes elas se assemelham mais a pesadelos, como a história do proprietário de terras que perde uma aposta feita com o espírito que mora em sua casa ou a do troll que troca o bebê de uma mulher por seu próprio filho. Outras histórias tratam de injustiças reparadas, o cristianismo contra o paganismo, etc.

domingo, setembro 28, 2008

Madame Bovary - Gustave Flaubert

Finalmente li Madame Bovary de Gustave Flaubert, um livro de uma maturidade psicológica incrível e escrito de uma forma magistal. A história começa apresentando o jovem Charles Bovary em seu primeiro dia de escola, um garoto tímido, não muito inteligente, medíocre até. Ele irá prosseguir seus estudos sem brilho e conseguirá uma posição como médico em uma cidade de província. Ele se casa com uma viúva com algum dinheiro devido à intervenção de sua mãe e depois que esta morre, Charles se casa com a jovem filha de um pequeno proprietário de terras, Emma. Charles adora a jovem esposa e julga-se o mais feliz dos homens, mas pouco tempo após o casamento, Emma sente-se decepcionada com sua escolha, com a simplicidade do marido, com a sua vida sem nada de interessante, sem paixões, sem grandes acontecimentos. Ela sonha com uma vida cheia de aventuras. Sua frustração torna-a vítima de doenças nervosas, de repentes de raiva e irritação contra o marido que não a compreende e que não mede esforços para satisfazer todos os seus caprichos.

Como forma de melhorar o humor da esposa, Charles decide mudar-se para outra pequena cidade. Lá, Emma conhece Leon, um rapaz que trabalha como notário e pelo qual se apaixona. Seu amor é correspondido, mas Leon parte para completar seus estudos antes que algo definitivo ocorra. Pouco tempo depois, quando Emma começa a se aborrecer novamente, ela conhece Rodolfo, um proprietário local que a seduz. Eles ficam juntos por algum tempo, mas Emma sugere que ambos fujam juntos, algo que ele não tem intenção de fazer, e o caso termina. Emma tem uma crise nervosa, depois entra em uma fase religiosa, mas logo volta a ser a mesma mulher insatisfeita com sua vida, é nesse momento que reencontra Leon, já um pouco mais experiente em relação à vida e às mulheres. Ele se torna seu novo amante. O final do livro é trágico, vemos Emma perder-se cada vez mais em uma sucessão de mentiras e dívidas contraídas para satisfazer seus caprichos.

Que história boa! A capa do livro que li traz a foto de Isabelle Huppert, atriz que interpretou o papel de Emma no filme com o mesmo nome do romance de Flaubert (que não vi), mas ela é tão diferente da Emma descrita pelo autor! Emma é morena, com cabelos pretos e olhos de uma cor indefinida , que varia conforme a luz, e também mais jovem do que atriz.

Eis um trecho que descreve o estado de espírito de Emma logo após um de seus encontros com Leon:

“Não importa! Ela não estava feliz, nunca o fora. De onde vinha essa insuficiência da vida, essa corrupção instantânea das coisas nas quais se apoiava?… Mas se existisse um ser forte e belo em algum lugar, uma natureza nobre, plena de exaltação e de refinamentos, um coração de poeta sob uma forma de anjo, lira com cordas de cobre, soando em direção aos céus versos elegíacos, por que ela não o encontraria por acaso? Oh! Que impossibilidade! Nada mais valia uma busca, tudo mentia! Cada sorriso escondia um bocejo de tédio, cada alegria uma maldição, todo prazer um desgosto, e os melhores beijos deixavam nos lábios apenas um desejo irrealizável de uma volúpia maior.”


terça-feira, setembro 09, 2008

What I talk about when I talk about running - Haruki Murakami

Acabei de ler o último livro de Haruki Murakami traduzido para o inglês, What I talk about when I talk about running, a entrevista da Der Spiegel entregou boa parte do conteúdo da obra, ela é praticamente um diário das maratonas que o autor fez pelo mundo depois que começou a correr após os trinta anos, mais ou menos na mesma época em que ele decidiu fechar o bar que tinha em Tóquio para viver da escrita.

Murakami procura mostrar a relação entre a corrida e a vida de escritor e explica como ambas as atividades exigem disciplina, força de vontade e empenho. O livro também revela sua preocupação com a idade e os limites que o passar dos anos impõe ao corpo. Por meio deste livro, os fãs de Murakami podem dar uma espiada em outra faceta do autor, mas tive a impressão de que apesar de tratar-se de uma espécie de diário, Murakami não abre mão de uma certa reserva…


segunda-feira, agosto 04, 2008

Bola de sebo e outros contos - Guy de Maupassant

Bons livros levam a outros livros, isso é inevitável. Após os elogios feitos por Nagai Kafu aos textos de Guy de Maupassant, não podia mais ignorar a existência deste último. Tinha um livro com alguns contos traduzidos e comecei a folheá-lo para conhecer o autor e gostei de tudo o que li. As histórias são muito bem contadas, muito boas mesmo. O autor mostra personagens bem humanos, com mais fraquezas e vícios do que virtudes, ardilosos e ignorantes.

Gostei muito de Bola de sebo, A pensão Tellier, Em família e Miss Harriet. Este último conto é muito bonito e delicado. Um dos últimos textos, Horla, é um conto fantástico muito interessante que talvez destoe um pouco do tema dos contos recolhidos no volume, pois a maioria trata de relacionamentos, mas é interessante observar como Maupassant constrói a história.

Acho essa descrição do Sr. Caravan, do conto Em família, muito bem feita:

“Estava velho agora, e não tinha sentido passar a vida, pois o colégio fora continuado pela repartição, e os bedéis, ante os quais ele tremia outrora, achavam-se hoje substituídos pelos chefes, a quem temia horrivelmente. A vista desses déspotas de gabinete o fazia estremecer dos pés à cabeça; e, desse contínuo terror, ficara-lhe uma maneira desajeitada de se apresentar, uma atitude humilde e uma espécie de gaguice nervosa.”

E este trecho de Monsieur Parent:

“Ele envelheceu entre o fumo dos cachimbos, perdeu os cabelos sob a chama do gás, considerou como acontecimentos o banho de cada semana, o corte de cabelo de cada quinzena, a compra de um traje novo ou de um chapéu. Quando chegava à sua cervejaria com um chapéu novo, contemplava-se longamente ao espelho antes de sentar-se, punha-o e tirava-o várias vezes seguidas, acomodava-o de diferentes modos, e perguntava enfim à sua amiga, a caixa do estabelecimento, que o olhava interessada: ‘Acha que me assenta bem?’

Duas ou três vezes por ano ele ia ao teatro, e, no verão, passava algumas vezes as suas noites num café-concerto dos Campos Elíseos. De lá trazia na cabeça árias que cantavam no fundo de sua memória durante várias semanas e que ele chegava mesmo a cantarolar, batendo o compasso com o pé quando se achava sentado ante seu chope.

Os anos se sucediam, lentos, monótonos, e curtos porque eram vazios.”


quinta-feira, julho 17, 2008

Dubrovski - Alexander Pushkin

Uma leitora boliviana de meu outro blog presenteou-me com vários mimos, entre eles, livros e textos. Aura foi um deles, Dubrovski foi outro. Novamente, outra primeira vez: primeira vez que leio Pushkin.
Dubrovski é um texto curto, inacabado e publicado postumamente. O título é o nome do protagonista de uma triste história. Vladimir Dubrovski é um jovem militar que de repente vê as terras de seu pai serem confiscadas de forma arbitrária por Kirila Petrovitch Troekurov, um grande proprietário que manda e desmanda na região.
Vítima de Troekurov, Dubrovski se transforma em uma espécie de bandido "justo", roubando quem sabe ser desonesto e poupando as pessoas honestas. Seu desejo é vingar-se de Troekurov, mas ele acaba apaixonando-se por Masha, a filha deste último, e seus planos vão por água abaixo.

Fiquei imaginando se a história não terminaria de melhor forma se Pushkin a tivesse terminado. (E como gostaria que ele a tivesse terminado!)

sábado, julho 05, 2008

American Stories - Nagai Kafu

Nagai Kafu é um escritor japonês do começo do século XX e os principais temas de suas obras são a vida e o cotidiano dos bairros de gueixas, das casas de chás, das prostitutas e de seus freqüentadores, figuras do “mundo flutuante” japonês. Eu o conhecia pela tradução inglesa de dois contos longos, During the rains e Flowers in the shade. Um é centrado no dia-a-dia de uma gueixa e o outro é sobre o relacionamento de um casal pobre, a mulher se prostitui e sustenta o marido. Não há muitos acontecimentos nas histórias de Nagai Kafu, mas a forma como ele as narra é muito poética.

Durante sua juventude, o escritor passou alguns anos nos Estados Unidos e American Stories é baseada nessa sua estadia. A maioria das histórias/relatos trata da vida de imigrantes que chegaram ao país com a expectativa de enriquecer e que são discriminados, sentem-se sós e alienados. Outros textos deixam transparecer a admiração do autor pela liberdade de costumes e modernidade dos americanos quando comparados com os japoneses.

Não gostei tanto deste livro quanto de During the rains, mas é interessante para ter uma idéia da configuração da sociedade americana na época e também para vê-la através dos olhos de um estrangeiro, e Nagai Kafu é um bom observador. Ele também gosta de citar poemas e autores franceses, vide um trecho de Fallen Leaves:

“Sonhos, embriaguez, ilusões, isso é nossa vida. Desejamos sempre ter amor e sonhamos com o sucesso, mas realmente não queremos que se realizem. Apenas perseguimos as ilusões que aparecem como se pudessem ser realizadas e desejamos embriagar-nos com essa antecipação e expectativa. Baudelaire diz que estar embriagado, essa é a única questão. Se você deseja evitar sentir o horrível peso do tempo que comprime seus ombros e o curva ao chão, você não deve hesitar em ficar bêbado. Seja com álcool, poesia, moralidade, ou o que quer que seja, isso não importa. Se às vezes você despertar de sua embriaguez nos degraus de um palácio, sobre a grama de um vale, ou em um quarto arruinado, pergunte ao vento, às ondas, às estrelas, aos pássaros, ou aos relógios, qualquer coisa que voe, mova-se, gire, cante, fale, que horas são. O vento, as ondas, as estrelas, os pássaros, os relógios responderão: é tempo de ficar embriagado, não importa se com álcool, poesia, moralidade, ou o que quer que seja; se você não quiser ser um mísero escravo do tempo, deve manter-se sempre embriagado...”


Ou este outro trecho de Two days in Chicago, ao notar como os americanos estão sempre com um jornal nas mãos:


“... que povo amante de jornais! Eles dirão que o povo de uma nação avançada deve procurar saber tanto quanto possa sobre o que acontece no mundo, e o mais rápido possível... Ah, mas eles não percebem que não há nada extraordinário ou estranho nos assuntos do mundo, a mesma confusão sendo repetida continuamente? Na diplomacia, o conflito de interesses entre A e B; nas guerras, o forte vence; os bancos quebram, há fraudes durante as eleições, descarrilamentos de trem, roubos, assassinatos, tais acontecimentos diários da existência são sempre os mesmos e monótonos ao extremo.

O escritor francês Maupassant já não teve que agüentar a intolerável dor desta terrivelmente tediosa vida e escreveu em seu diário: Abençoados aqueles que ignoram que as mesmas abomináveis coisas são incessantemente repetidas. Abençoados aqueles que andam hoje e amanhã nas mesmas carruagens, conduzidas pelos mesmos animais e têm a energia, sob o mesmo céu, diante do mesmo horizonte, de fazer o mesmo trabalho da mesma forma, rodeados pelos mesmos móveis. Abençoados aqueles que não se dão conta, com grande ódio, de que nada mudará ou acontecerá neste esgotado e cansado mundo..."

terça-feira, julho 01, 2008

Aura - Carlos Fuentes

Um livro que cabe na palma da mão, praticamente um conto.
Primeiro texto de Carlos Fuentes que leio. Gostei muito da história, comecei a lê-la sentada em uma cantina da universidade, passei para um banco de praça e terminei-a em casa no mesmo dia. A narrativa é envolvente e ia virando uma página atrás da outra.

Felipe monteiro é um professor de história de vinte e poucos anos que lê um anúncio mais ou menos assim no jornal: “Procura-se jovem historiador, organizado, cuidadoso, que saiba francês para executar funções de secretário.”
O pagamento é ótimo e ainda há cama e comida.
Quando ele lê o anúncio pela primeira vez, não se candidata, pois acha que alguém já foi contratado, mas na segunda vez em que vê o anúncio no mesmo jornal, dirige-se ao endereço indicado, uma casa antiga e decadente, onde é recebido por uma velha que, pelas suas contas, deve ter mais de cem anos. Sua tarefa consiste em ler e corrigir os diários de seu falecido esposo. Ele é conduzido ao seu quarto pela sobrinha da velha, Aura, uma jovem de olhos verdes pela qual logo se apaixona. Daí em diante, coisas estranhas começam a acontecer naquele lugar onde a noção de tempo e realidade perde-se em cômodos eternamente escuros e opressivos.

segunda-feira, junho 23, 2008

Mais Turguenev

Li mais duas histórias escritas por Ivan Turguenev, dois romances que mais parecem contos, pois Turguenev é bem econômico se comparado com alguns de seus conterrâneos como Dostoievski e Tolstoy, mas claro que isso não serve de critério para avaliar a qualidade de uma obra.
Li Diário de um homem supérfluo e Primeiro amor. O primeiro é um tipo de diário escrito por um homem em seu leito de morte. Ele conta sua paixão não correspondida por uma garota e as situações patéticas na qual se coloca devido ao seu ciúme. Na segunta obra, o autor narra um episódio real de sua juventude de forma romanceada. É a história de um garoto de dezesseis anos que se apaixona por uma garota cinco anos mais velha que, posteriormente, ele descobre ser a amante de seu pai.
Por alguma razão, as duas hitórias, respeitadas as devidas proporções, lembraram-me de dois romances curtos de Dostoievski que li no começo do ano. O Diário lembrou-me de Subsolo, a história de um homem que também não possui nenhum tato nas relações sociais e age por impulso, o que o coloca em situações no mínimo constrangedoras; Primeiro amor, por sua vez, lembrou-me de Noites Insones, uma história muito bonita também de um amor não correspondido, ambos os romances têm um sabor agridoce.

Do Diário de um homem supérfluo:

"Meu Deus! É possível que vinte anos tenham se passado? Alguém diria que está tão longe o tempo em que , montado sobre meu alazão de pêlos longos, eu percorria a velha cerca de nosso jardim onde, em pé sobre os estribos, colhia as flores bicolores dos álamos? No instante em que vive, o homem não possui o sentimento de sua própria vida, como o som, ela só se torna perceptível depois de um certo intervalo de tempo."


sábado, junho 14, 2008

kafka à beira-mar


murakami... o que dizer sobre esse escritor que já não tenha sido dito aqui neste blog (rs)?

kafka à beira-mar é mais um livro desses que te laçam, te abduzem, lançam seus encantos e te enfeitiçam e te devoram. ao todo, acho que demorei cerca de 7 dias para lê-lo todo. isso porque eu estava tão lotada de coisas a fazer que, forçadamente, tinha de fechá-lo e me conformar em continuar "depois".

agora entendo completamente por que é que a karen batizou seu blog de "kafka na praia".

kafka tamura, "o menino de 15 anos mais valente do mundo" já havia planejado, há tempos, a fuga de casa. um menino aparentemente comum, mas, a quem olhar bem de perto, bastante peculiar com suas fraquezas, desejos, questionamentos, conhecimentos, força-de-vontade... ele parte sem olhar pra trás, sem saber ao certo para onde ir, mas, paradoxalmente, com a certeza de que era para aquele exato lugar que ele tinha de ir.

nakata, um velhote que parece simplório, é muito simpático e logo cativa o coração do leitor com sua singeleza. exposto a um estranho fenômeno quando era criança, perdeu a capacidade de fazer coisas comuns à maioria das pessoas como ler e escrever, mas, em compensação, ganhou estranhos poderes que ninguém mais é capaz de ter.

murakami vai contando a história dessas duas personagens - tão díspares quanto possível - alternadamente: os capítulos pares são dedicados a nakata e contados em 3a pessoa e os ímpares pertencem a kafka e são contados em 1a pessoa. isso, por vezes, chega a dar uma certa exasperação pois quando a coisa parece que está prestes a ser revelada é o fim do capítulo! damm it! juro que fiquei com vontade de ler todos os capítulos pares primeiro e depois ler os ímpares ^.^! porém, lá na parte final, é claro que os destinos deles vão se encontrar. (o engraçado é que, depois, conversando com a karen, ela mencionou que a versão em japonês é composta de dois tomos: um para o nakata e o outro para o kafka =)! acho que eu ia preferir!

murakami é de fazer você perder o fôlego! por vezes fico pensando de onde é que esses japoneses tiram essas idéias amalucadas para suas histórias! é só você ler qualquer mangá ou assistir a um animê ou ler um livro do murakami para se espantar com a imaginação do sujeito. amazing!!! quero ir passear nesse lugar onde eles passeiam para criarem esses mundos maravilhosamente fisgantes hihihihi.

o que eu especialmente adoro em murakami é o jeito com que ele constrói o que ele quer contar. é tão cheio de nuances e suavidades e cores. tenho vontade de ler e reler e reler infinitamente. li o livro de uma enfiada só, ansiando por saber dos fatos e agora tenho vontade de reler com mais vagar, saboreando essas passagens especiais. livros como kafka e a sputinik ficam sempre cheios de post-its amarelinhos risonhos a marcar os trechos especiais para que eu possa sempre lê-los novamente. e cada leitura é um momento de deleite, às vezes a única sensação refrescante numa árida tarde de trabalho difícil de ser parido!

escolhi dois trechos para compartilhar aqui:


"torno a olhar o seu busto. a área, arredondada e saliente, se projeta e se retrai lentamente, como ondas em movimento. imagino uma vasta extensão de mar varrida por uma garoa fina. sou um navegante solitário em pé no convés, e ela é o mar. o céu se reveste de uniforme tonalidade cinza e lá, bem adiante, se junta com o mar, que também está cinzento. é muito difícil distinguir céu de mar. ou o próprio navegante do mar. as coisas reais das coisas emocionais."

"o que eu busco, isto é, a força que eu busco, não se relaciona com vitórias ou derrotas. tampouco procuro paredes capazes de rechaçar forças externas. o que eu busco é a força que me permita suportar com serenidade a injustiça, a falta de sorte, a tristeza, o mal-entendido e a incompreensão."

agradeço especialmente à pri e ao cris que me fizeram presente desse tesouro!

e, à querida karen, gostaria de presentear com um desenho que fiz que - embora não fosse a intenção original - não consigo deixar de pensar que é a minha versão para a pintura "kafka à beira-mar" citada no livro!


SERVIÇO
título Kafka à beira-mar
autor Haruki Murakami
editora Alfaguara
páginas 571 páginas
título original Umibe no Kafuka
tradução de Leiko Gotoda
preço médio R$ 54,90

domingo, junho 08, 2008

Pais e filhos - Ivan Turneguev

A primeira vez que ouvi falar do livro Pais e filhos de Turguenev foi no primeiro ou segundo ano da faculdade da boca de um colega de turma que gostava dos existencialistas alemães. Lembro que ele me disse que aquele era o primeiro romance no qual a palavra "nihilismo" era mencionada. Os anos se passaram e só voltei a pensar em Turguenev depois de ler The Moveable Feast, do Hemingway. Fiquei curiosa. Lembrei daquele colega de faculdade e li a tradução francesa do romance que encontrei em casa.
Como os russos escrevem bem, não é mesmo? Eles sabem descrever as relações humanas com muita perspicácia. O livro é sobre a amizade de dois jovens amigos, Bazarov e Arcade. O primeiro diz ser um nihilista, alguém que não acredita em valores e não respeita qualquer autoridade, Arcade o admira e pretende ser seu discípulo, mas ele é muito diferente de Bazarov e não consegue reprimir sua natureza sensível. Uma ruptura com o seu "mentor" é inevitável.
O conflito se estabelece quando Arcade retorna à propriedade de sua família após terminar os estudos e reecontra seu pai. As novas "idéias" do filho decepcionam-no, além disso, influenciado por Bazarov, Arcade dá a entender que a geração paterna está ultrapassada. A relação de Arcade e Bazarov com seus pais é retratada de forma tocante. Os genitores amam seus rebentos apesar de não os compreenderem e os dois jovens, por sua vez, não deixam de sentir afeição por seus pais apesar de chamarem-nos de "românticos".

No final do século XIX, o livro provocou diversas controvérsias e Turguenev foi criticado devido às idéias de Bazarov, hoje, quem liga? Em nossa sociedade, quem se importa se alguém disser que não acredita em nada? Que todas as formas de ideal são vazias?

segunda-feira, junho 02, 2008

The sun also rises - Ernest Hemingway

O sol também se levanta, outro livro de Ernest Hemingway. Boa história, mas gostei mais das memórias de Paris. Deve ser porque eram de Paris, cidade que ainda vou conhecer. Ah, se vou!
Entretanto, a história começa em Paris onde Jake Barnes encontra seus amigos intelectuais da “geração perdida” em cafés e restaurantes. Ela é sobre boêmios que bebem álcool sob várias formas e nomes, vivem duros e quando têm algum dinheiro gastam-no com estilo.
Jake e seus conhecidos saem da França e vão até a Espanha pescar trutas nas montanhas e depois passam alguns dias em Pamplona para assistir à temporada de touradas. No grupo, há quatro homens e uma mulher, Brett, pela qual três deles são apaixonados. Ela é o elemento perturbador da paz geral e termina nos braços de um toureiro quinze anos mais moço.

Desculpem a simplificação. Acho que não gostei muito do livro. Vou ler Turgenev que Hemingway recomenda que todos leiam.


segunda-feira, maio 26, 2008

Die Verwandlung - Franz Kafka

Quem conhece meu outro blog sabe que ele não foi nomeado em homenagem ao escritor Franz Kafka, mas inspirado no título de um romance do escritor japonês Haruki Murakami.
Talvez decepcione algumas pessoas, mas tenho que confessar que Franz Kafka nunca foi um de meus escritores favoritos, li O Processo e achei aquela história angustiante e opressiva. Nunca fui além de algumas páginas de O Castelo e devo ter lido a Carta ao pai algum dia, mas não me lembro de nenhuma frase.
Die Verwandlung, ou A metamorfose, foi uma agradável surpresa. Resolvi ler a versão bilíngue, alemã-italiana, de O. e gostei bastante da história. Se há algo que admiro em Kafka é a simplicidade e objetividade de sua escrita, características que tornam as situações que ele narra ainda mais bizarras.
Ao contrário do que imaginava, Gregor Samsa, o personagem principal de A metamorfose, não se transformou em uma barata como li em alguns lugares no passado. O primeiro parágrafo diz claramente que Gregor Samsa acordou e descobriu que se transformara em um "inseto monstruoso", ponto.
Li quase tudo em alemão, às vezes dava um olhada na versão italiana, mas descobri que preciso melhorar muito meu vocabulário nessa última língua...

domingo, maio 18, 2008

A moveable feast - Ernest Hemingway

Graças à recomendação feita no post sobre um livro de Scott Fitzgerald, não só descobri que os livros de Ernest Hemingway da biblioteca de casa estavam sendo consumidos pelas traças, mas também li um texto gostoso.
Tinha lido pouca coisa do Hemingway, apenas O Velho e o mar e O jardim do Éden, ambos quando estava no ginásio, há muito tempo atrás.
A moveable Feast (o título parece ter sido traduzido como Paris é uma festa em português) é uma obra póstuma (como O jardim do Éden) e contém as memórias de Hemingway no começo de sua carreira como escritor em Paris. Nelas, ele conta sua vida com Hadley, sua primeira esposa, e seus encontros com figuras famosas no cenário literário da época, entre elas: Gertrude Stein, James Joyce, Ezra Pound e Scott Fitzgerald. Um dos primeiros encontros com este último, aliás, por pouco não foi o único, pois quando Fitzgerald bebia, parecia ficar insuportável.
Hemingway fala sobre a sua pobreza naquele período com nostalgia: o quarto alugado em um bairro pobre de Paris não tinha banheiro ou sala de banho e às vezes ele pulava uma refeição para economizar. Mas não era bem a idéia de pobreza que conhecemos, pois os Hemingway não abriam mão de ter uma empregada para cuidar do filho e sempre que economizavam algo, passavam férias em algum lugar na Europa.
Devia ser bom ser um escritor promissor em Paris no começo do século passado, entrar em cafés onde havia sempre um conhecido disposto a pagar um bebida, escutar os garçons perguntarem se o trabalho tinha sido bom naquele dia, observar os pescadores ao longo dos rios, acreditar no próprio talento e, mesmo que ele ainda não fosse reconhecido, sentir que a vida ainda era boa...
Eis o começo de um dos capítulos:

“Quando a primavera chegava, mesmo a falsa primavera, não havia problemas exceto o de onde ser mais feliz. A única coisa que poderia estragar um dia eram as pessoas, e se você pudesse evitar compromissos, cada dia era ilimitado. As pessoas eram sempre as limitadoras da felicidade, com exceção daquelas poucas que eram tão boas quanto a própria primavera.”

segunda-feira, abril 28, 2008

The great Gatsby - F. Scott Fitzgerald

“Comecei a gostar de New York, da vibrante, atrevida sensação de sua noite e da satisfação que o tremeluzir de homens e mulheres proporciona aos olhos inquietos. Gostava de subir a 5ª Avenida e escolher mulheres românticas na multidão e imaginar que em alguns minutos eu entraria em suas vidas, e que ninguém nunca saberia ou desaprovaria. Às vezes, em minha mente, eu as seguia até seus apartamentos nas esquinas de ruas escondidas e elas se voltavam e sorriam antes de desaparecerem em uma escuridão morna através de uma porta. Algumas vezes, no mágico entardecer metropolitano, eu sentia uma angustiante solidão, também a sentia nos outros – pobres jovens funcionários que demoravam-se na frente de janelas esperando até que fosse hora de um jantar solitário em um restaurante – jovens funcionários ao pôr do sol, desperdiçando os mais pungentes momentos da noite e da vida.”

Depois de Tender is the night, The great Gatsby.
F. Scott Fitzgerald é um grande escritor, gosto da forma como ele descreve as cenas, elas são de grande beleza plástica, romântica, melancólica. A sensação que tenho enquanto leio seus livros é semelhante àquela que experimento quando uma festa acaba.
Gatsby é o rapaz pobre que constrói uma fortuna usando meios escusos. Ele tem uma bela casa onde dá festas concorridas quase todas as noites e parece ter uma vida invejável, entretanto, a única coisa que deseja é reconquistar uma paixão de juventude. Bela e triste história.

sábado, abril 19, 2008

Les Somnambules - Hermann Broch

Outro livro de Hermann Broch. Ele é aquele tipo de autor que escreve com a intenção de capturar o espírito de uma época e também de usar os romances para expor uma tese. Hoje em dia acho que ninguém mais faz isso e também há poucos leitores para obras assim, mas Broch escreve de forma interessante, mistura teorias sobre arte, literatura e filosofia em seus textos. É preciso ter um certo fôlego para ler Os sonâmbulos, mas depois que a leitura engrena, é difícil deixá-la de lado. O livro é constituído de três grandes partes separadas em períodos distintos entre os anos de 1888-1918, a primeira, 1888 - Pasenow ou o romantismo, conta a história de um militar dividido entre seus deveres familiares, a observação dos valores da sociedade e a fidelidade ao exército; a segunda, 1903 – Esch ou a anarquia, conta a história de um contador com tendências comunistas e, a última, 1918 – Huguenau ou o realismo, é sobre um soldado que deserta durante a guerra e se instala em uma pequena cidade usando seus conhecimentos financeiros e “esquemas” capitalistas para levantar alguns fundos para manter-se. Na última parte, os dois protagonistas das primeiras histórias se encontram e seus destinos são profundamente ligados.
O romance é bem triste. Cada um dos personagens representa um momento histórico, filosófico e moral do período. Pasenow é aquele que procura observar as crenças morais da sociedade e das instituições; Esch já não é capaz de fazer isso como desejaria e por isso vive em conflito e, por fim, Huguenau é aquele que não se importa com a moralidade ou ideais, ele é o homem totalmente racional e sem fidelidades, o capitalista preocupado com seu próprio bem-estar e, por isso mesmo, o mais perigoso de todos, como mostra o desenlace da história.
Broch narra a corrupção dos valores, a decadência progressiva de uma época. Livros que tratam de longos períodos de tempo ou que narram a história de gerações de uma família parecem ser sempre pessimistas, há sempre uma degradação. Algo muito humano, não é mesmo? Visto que nós temos o hábito de olhar para o passado com nostalgia e, não raro, dizemos que aqueles sim, eram bons tempos!

quinta-feira, abril 10, 2008

The three cornered world - Natsume Soseki

Outro livro de Natsume Soseki. Muito bonito. A história é bem singela e narra as impressões de um artista que viaja até uma estação termal onde se hospeda em um pequeno hotel e os seus encontros com a filha do proprietário do lugar, O-nani, uma mulher com personalidade forte e um passado marcado por uma relação amorosa triste.
Apesar da Guerra da Manchúria ser mencionada e estar bem presente no final da história, é um dos livros mais “otimistas” de Soseki que li.
O personagem principal deve ser o ideal de artista do autor, ele é descompromissado, um andarilho em busca de inspiração que vive segundo o adágio do “Carpe Diem”, muito diferente do próprio Soseki que tinha uma vida mais complicada e atormentada por questões financeiras e conjugais.
O nome do livro em japonês (“Kusa Makura”) daria algo como “Travesseiros de relva” (como foi mantido em francês), mas o tradutor para o inglês preferiu usar uma expressão encontrada no texto, não tenho nada contra a sua decisão, mas que a expressão original era mais bonita, ah, isso era!

Eis alguns dos primeiros parágrafos, a profissão de fé do protagonista:

“Enquanto subia a trilha da montanha, comecei a refletir.
Aborde tudo racionalmente e você se tornará duro. Deixe-se levar pelo fluxo das emoções e será arrastado com a corrente. Dê rédeas aos seus desejos e você se sentirá desconfortavelmente confinado. Este nosso mundo não é um lugar muito agradável para se viver.
Quando o desconforto aumenta, você ficará inclinado a se mudar para um lugar onde a vida seja mais fácil. É somente quando percebe que ela não será mais agradável independente da altura que atinja que um poema pode nascer ou uma pintura pode ser criada.
A criação deste mundo não é o trabalho de um deus ou de um demônio, mas das pessoas comuns ao nosso redor, aqueles que vivem do outro lado da rua, ou ao nosso lado, movendo-se enquanto ocupam-se com seus afazeres cotidianos. Você pode achar que este mundo criado por pessoas comuns é um lugar horrível para se viver, mas para onde mais poderíamos ir? Mesmo que houvesse outro lugar, só poderia ser um lugar fora da esfera humana, e quem pode dizer se não seria um mundo ainda pior do que este?
Não há como escapar deste mundo. Portanto, se você acha a vida difícil, não há o que fazer além de procurar manter-se o mais calmo possível durante os períodos desagradáveis, mesmo que o consiga por períodos bem curtos, e assim tornar a breve duração da existência suportável. É aqui que a vocação do artista começa a existir, é aqui que o pintor recebe a incumbência divina. Agradeça aos céus por todos aqueles que, pelos meios tortuosos de sua arte, trazem tranqüilidade para o mundo e enriquecem os corações dos homens.
Despoje o mundo de todos aqueles cuidados e preocupações que o tornam um lugar desagradável para se viver e, ao invés dele, imagine um mundo de graciosidade. Agora você possui música, uma pintura, ou poema, ou escultura. Iria além e diria que não é necessário transformar essa visão em realidade. Apenas invoque essa imagem na frente de seus olhos e a poesia irá brilhar e canções irão fluir. Antes de passar seus pensamentos para o papel, você deve sentir o cristal retinir como um pequeno sino e elevar-se em seu interior, toda a gama de cores irá, por si só, gravar-se no olho de sua mente com todo o seu brilho, embora a tela permaneça intocada em seu cavalete. É suficiente que você seja capaz de adotar essa forma de considerar a vida e ver este mundo decadente, sujo e vulgar, purificado e belo na câmera de sua alma. Mesmo o poeta cujos pensamentos nunca foram expressos em um único verso, ou o pintor que não possui tintas e nunca pintou sequer um pedaço de tela, pode obter a salvação e libertar-se dos desejos e paixões terrenos. Eles podem entrar em um mundo de imaculada pureza quando quiserem e, desfazendo-se do jugo da avareza e do egoísmo, são capazes de construir um universo inigualável. Por isso, eles são mais felizes do que os ricos e famosos, do que qualquer senhor ou príncipe que já viveu, mais felizes do que todos aqueles para os quais este mundo vulgar prodigaliza suas afeições.”


quinta-feira, abril 03, 2008

The guiltless - Hermann Broch

Outra vez foi o Milan Kundera quem me conduziu até um autor, agora, Hermann Broch, filho de judeus austríacos que foi educado para administrar a indústria têxtil da família, mas que no final deixou tudo para estudar filosofia e matemática e viver como escritor, e um grande escritor, diga-se de passagem. Comecei pelo seu livro mais fino (não que isso fosse o critério para a escolha) para ter uma idéia de seu estilo. Também tenho a versão em alemão que peguei no ano passado quando a escola doou alguns livros. A idéia era ler o original e comparar com a versão em inglês, mas a história estava tão interessante e o método era tão lento que acabei desistindo e lendo em alemão mesmo.
Como o autor explica, o livro foi baseado em alguns contos que ele havia escrito e aos quais foram juntados outros para criar uma única história. Ela narra o encontro e o relacionamento de algumas pessoas na Europa antes da segunda Guerra. Segundo Hermann Broch, sua intenção era mostrar como a indiferença de personagens como Andréas, seu protagonista, foi um dos fatores que agravaram a situação da Alemanha. Os “inocentes” do título são aqueles que se negaram a assumir a culpa pela deterioração dos valores na Europa e limitaram-se a viver de forma indolente na esfera de seu universo particular. Entretanto, todos os personagens - a velha baronesa, sua filha, Zerline, a empregada e o próprio Andréas - pagam preços altos por sua indiferença, todos vivem, ironicamente, carregando o fardo de suas ações.

Este é um trecho da confissão de culpa feita por Andréas quase no final do livro:

“Indiferente ao sofrimento alheio, indiferente ao nosso destino, indiferente ao Eu no homem, à sua alma. Conseqüentemente, torna-se uma questão de indiferença quem é arrastado para o local de execução primeiro. Você hoje, eu amanhã.”

Terrível, não?

terça-feira, março 25, 2008

Nichts als Gespenster - Judith Hermann

Faz já algum tempo que terminei o segundo livro da Judith Hermann, Nichts als Gespenster (Nada além de fantasmas), ainda não vi o filme, mas acho difícil filmar algo com os contos que não se limite a pequenos quadros nos quais os personagens passam a maior parte do tempo calados enquanto fumam cigarros e bebem café (como no livro anterior, não há um conto no qual os personagens não fumem pelo menos um cigarro ou bebam uma xícara de café ou chá).
Um triângulo amoroso na Alemanha, um casal na Islândia, uma filha com os pais em Veneza, um casal de amigos na República Tcheca, namorados em um bar no deserto texano, conhecidos comemorando o Natal em Praga e um casal de amigos músicos que vai até a Noruega para apresentar-se em um festival que é cancelado. Judith Hermann certamente é cosmopolita, conhece vários pontos do globo! Os personagens estão todos na casa dos trinta, têm empregos alternativos/criativos e tempo e família não fazem parte de suas preocupações cotidianas, pois eles viajam e decidem ficar ou não conforme lhes dê na telha. Eles também nunca estão seguros sobre o que sentem, os relacionamentos são ambíguos, inconclusos. O que é engraçado é perceber que apesar dos personagens estarem sempre em movimento, pelo menos em países diversos, eles passam a maior de suas estadas dentro de quartos ou apartamentos e nunca estão à vontade nos novos ambientes. Se a idéia do cosmopolita é a daquela pessoa que sente-se bem em qualquer lugar que esteja, os personagens da autora são a sua versão contrária.
Eu fiquei me perguntando se minha geração (a trintona) é assim: autocentrada, apática, indecisa, ambígua, e fiquei triste ao constatar que talvez EU seja assim, (segundo O., uma enxada nas mãos e alguns filhos pendurados na saia acabam com esse tipo de frescura), mas psicologia barata à parte, até cheguei a gostar de uma ou duas histórias, mas não é meu tipo de leitura. Nunca gostei de espelhos...

quinta-feira, março 13, 2008

Travels with a donkey - Robert Louis Stevenson

No livro sobre a França que li no ano passdo, este livro de R. L. Stevenson era mencionado e como ele estava na estante e já tinha pensado em lê-lo, resolvi colocar o pensamento em prática.
Nele, Stevenson narra sua viagem de doze dias pela região montanhosa de Cévennes no sul da França. O burrinho do título é uma fêmea que o escritor adquire no começo da viagem e que ele vende ao seu final. Modestine (esse é seu nome) carrega os pertences e a comida do autor que não monta sobre ela, mas caminha ao seu lado e lhe dá vergastadas quando ela não trota com muita boa vontade. (Os defensores dos animais provavelmente iriam reprová-lo, mas teriam que entender que é difícil ser paciente quando é preciso chegar em um vilarejo antes de escurecer para evitar dissabores maiores e se levarem em consideração que uma pessoa andando sozinha é mais rápida do que outra caminhando com um burro.)
Stevenson escreve sobre suas dificuldades de viagem como as condições precárias dos albergues e a má vontade das pessoas para quem pede informações. Em um povoado, as crianças mostram-lhe a língua e ninguém lhe abre a porta a noite, mas é compreensível, na época em que ele viaja, no final do século XIX, a região de Cévennes era bem isolada e a vida era outra: sem eletricidade, meios de comunicação rápidos e com muitas superstições.
As pessoas achavam seu projeto ousado e curioso, mas creio que hoje em dia seria fácil fazer o trajeto de bicicleta.
Como sempre ocorre quando leio relatos de viagens feitas em um ritmo menos frenético do que nos tempos atuais, fiquei nostálgica. Gostaria de sentir o gostinho de viajar no ritmo dos cavalos, (burros) e navios! Vocês não?

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Achei curiosa a descrição que Stevenson faz de como era preparada uma bebida feita com uvas chamada “a parisiense” que ele bebe em um jantar com uma família em St. Jean de Calberte no final de sua viagem. As videiras locais sofriam com a Phylloxera e ao invés de vinho, eles oferecem esse suco de uvas meio fermentado:

“A phylloxera estava na vizinhança e ao invés de vinho, bebemos um sumo mais econômico de uvas no jantar, A Parisiense, como eles o chamam. Ele é feito colocando-se a fruta inteira na barrica com água. Os bagos fermentam um a um e estouram. O que é bebido durante o dia é colocado na água durante a noite. Então, sempre com um outro balde do poço e outros bagos explodindo e fornecendo seu vigor, uma barrica de “Parisiense” pode durar até a primavera para uma família. A bebida é, como o leitor pode antecipar, bem fraca, mas muito agradável para o paladar.”