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quarta-feira, dezembro 24, 2008

O jardim adormecido de Riichi Yokomitsu

(Foto de Riichi Yokomitsu na contracapa da coletânea)
Primeira leitura “solo” de um livro em japonês, a maioria dos livros nessa língua que li antes já tinham sido lidos em traduções, então, eu sempre tinha uma idéia geral do enredo. O autor chama-se Riichi Yokomitsu (1898-1947), eu nunca ouvi falar dele por aqui e há bem poucas traduções de suas obras, quase nada, as informações sobre o autor também são sumárias na internet.

O título da história poderia ser traduzido como “Jardim adormecido”, ele é constituído de dois kanjis, o de dormir (寝) e o de jardim/parque (園), os dois juntos não formam uma palavra única (pelo menos não achei nos dicionários que consultei), por isso, traduzi assim.

A história se passa na época da depressão de 30 (pensando na conjuntura econômica atual, não pude deixar de achar a coincidência irônica) e é sobre vários triângulos, quase quadriláteros, amorosos envolvendo várias pessoas de uma classe comercial abastada. Nanae é casada com Niwa, mas ama Ha, um amigo da família. Nanae também é amada por Taka, um jovem estudante que, como bom Don Juan, não deixa de “tirar uma casquinha” roubando beijos de todas as personagens femininas que cruzam seu caminho, entre elas, Aiko, parente de Nanae. Aiko, por sua vez, tem uma queda por Niwa, marido de Nanae.

As paixões e flertes não vão a lugar algum devido às convenções sociais e também porque Ha, que poderia tentar fazer com que Nanae se divorciasse, está em sérios apuros financeiros e perde toda a sua fortuna com a depressão. Outro fator que complica a situção é o fato de Nanae acertar um tiro acidental em Niwa durante uma caçada a javalis promovida pelo clube de tiro de que fazem parte. A culpa faz com que ela renuncie a se aproximar de Ha.

Os personagens são infelizes e suas vidas não parecem ir para lugar algum, eles estão mesmo “anestesiados” em um “Jardim adormecido”.


terça-feira, setembro 09, 2008

What I talk about when I talk about running - Haruki Murakami

Acabei de ler o último livro de Haruki Murakami traduzido para o inglês, What I talk about when I talk about running, a entrevista da Der Spiegel entregou boa parte do conteúdo da obra, ela é praticamente um diário das maratonas que o autor fez pelo mundo depois que começou a correr após os trinta anos, mais ou menos na mesma época em que ele decidiu fechar o bar que tinha em Tóquio para viver da escrita.

Murakami procura mostrar a relação entre a corrida e a vida de escritor e explica como ambas as atividades exigem disciplina, força de vontade e empenho. O livro também revela sua preocupação com a idade e os limites que o passar dos anos impõe ao corpo. Por meio deste livro, os fãs de Murakami podem dar uma espiada em outra faceta do autor, mas tive a impressão de que apesar de tratar-se de uma espécie de diário, Murakami não abre mão de uma certa reserva…


sábado, julho 05, 2008

American Stories - Nagai Kafu

Nagai Kafu é um escritor japonês do começo do século XX e os principais temas de suas obras são a vida e o cotidiano dos bairros de gueixas, das casas de chás, das prostitutas e de seus freqüentadores, figuras do “mundo flutuante” japonês. Eu o conhecia pela tradução inglesa de dois contos longos, During the rains e Flowers in the shade. Um é centrado no dia-a-dia de uma gueixa e o outro é sobre o relacionamento de um casal pobre, a mulher se prostitui e sustenta o marido. Não há muitos acontecimentos nas histórias de Nagai Kafu, mas a forma como ele as narra é muito poética.

Durante sua juventude, o escritor passou alguns anos nos Estados Unidos e American Stories é baseada nessa sua estadia. A maioria das histórias/relatos trata da vida de imigrantes que chegaram ao país com a expectativa de enriquecer e que são discriminados, sentem-se sós e alienados. Outros textos deixam transparecer a admiração do autor pela liberdade de costumes e modernidade dos americanos quando comparados com os japoneses.

Não gostei tanto deste livro quanto de During the rains, mas é interessante para ter uma idéia da configuração da sociedade americana na época e também para vê-la através dos olhos de um estrangeiro, e Nagai Kafu é um bom observador. Ele também gosta de citar poemas e autores franceses, vide um trecho de Fallen Leaves:

“Sonhos, embriaguez, ilusões, isso é nossa vida. Desejamos sempre ter amor e sonhamos com o sucesso, mas realmente não queremos que se realizem. Apenas perseguimos as ilusões que aparecem como se pudessem ser realizadas e desejamos embriagar-nos com essa antecipação e expectativa. Baudelaire diz que estar embriagado, essa é a única questão. Se você deseja evitar sentir o horrível peso do tempo que comprime seus ombros e o curva ao chão, você não deve hesitar em ficar bêbado. Seja com álcool, poesia, moralidade, ou o que quer que seja, isso não importa. Se às vezes você despertar de sua embriaguez nos degraus de um palácio, sobre a grama de um vale, ou em um quarto arruinado, pergunte ao vento, às ondas, às estrelas, aos pássaros, ou aos relógios, qualquer coisa que voe, mova-se, gire, cante, fale, que horas são. O vento, as ondas, as estrelas, os pássaros, os relógios responderão: é tempo de ficar embriagado, não importa se com álcool, poesia, moralidade, ou o que quer que seja; se você não quiser ser um mísero escravo do tempo, deve manter-se sempre embriagado...”


Ou este outro trecho de Two days in Chicago, ao notar como os americanos estão sempre com um jornal nas mãos:


“... que povo amante de jornais! Eles dirão que o povo de uma nação avançada deve procurar saber tanto quanto possa sobre o que acontece no mundo, e o mais rápido possível... Ah, mas eles não percebem que não há nada extraordinário ou estranho nos assuntos do mundo, a mesma confusão sendo repetida continuamente? Na diplomacia, o conflito de interesses entre A e B; nas guerras, o forte vence; os bancos quebram, há fraudes durante as eleições, descarrilamentos de trem, roubos, assassinatos, tais acontecimentos diários da existência são sempre os mesmos e monótonos ao extremo.

O escritor francês Maupassant já não teve que agüentar a intolerável dor desta terrivelmente tediosa vida e escreveu em seu diário: Abençoados aqueles que ignoram que as mesmas abomináveis coisas são incessantemente repetidas. Abençoados aqueles que andam hoje e amanhã nas mesmas carruagens, conduzidas pelos mesmos animais e têm a energia, sob o mesmo céu, diante do mesmo horizonte, de fazer o mesmo trabalho da mesma forma, rodeados pelos mesmos móveis. Abençoados aqueles que não se dão conta, com grande ódio, de que nada mudará ou acontecerá neste esgotado e cansado mundo..."

sábado, junho 14, 2008

kafka à beira-mar


murakami... o que dizer sobre esse escritor que já não tenha sido dito aqui neste blog (rs)?

kafka à beira-mar é mais um livro desses que te laçam, te abduzem, lançam seus encantos e te enfeitiçam e te devoram. ao todo, acho que demorei cerca de 7 dias para lê-lo todo. isso porque eu estava tão lotada de coisas a fazer que, forçadamente, tinha de fechá-lo e me conformar em continuar "depois".

agora entendo completamente por que é que a karen batizou seu blog de "kafka na praia".

kafka tamura, "o menino de 15 anos mais valente do mundo" já havia planejado, há tempos, a fuga de casa. um menino aparentemente comum, mas, a quem olhar bem de perto, bastante peculiar com suas fraquezas, desejos, questionamentos, conhecimentos, força-de-vontade... ele parte sem olhar pra trás, sem saber ao certo para onde ir, mas, paradoxalmente, com a certeza de que era para aquele exato lugar que ele tinha de ir.

nakata, um velhote que parece simplório, é muito simpático e logo cativa o coração do leitor com sua singeleza. exposto a um estranho fenômeno quando era criança, perdeu a capacidade de fazer coisas comuns à maioria das pessoas como ler e escrever, mas, em compensação, ganhou estranhos poderes que ninguém mais é capaz de ter.

murakami vai contando a história dessas duas personagens - tão díspares quanto possível - alternadamente: os capítulos pares são dedicados a nakata e contados em 3a pessoa e os ímpares pertencem a kafka e são contados em 1a pessoa. isso, por vezes, chega a dar uma certa exasperação pois quando a coisa parece que está prestes a ser revelada é o fim do capítulo! damm it! juro que fiquei com vontade de ler todos os capítulos pares primeiro e depois ler os ímpares ^.^! porém, lá na parte final, é claro que os destinos deles vão se encontrar. (o engraçado é que, depois, conversando com a karen, ela mencionou que a versão em japonês é composta de dois tomos: um para o nakata e o outro para o kafka =)! acho que eu ia preferir!

murakami é de fazer você perder o fôlego! por vezes fico pensando de onde é que esses japoneses tiram essas idéias amalucadas para suas histórias! é só você ler qualquer mangá ou assistir a um animê ou ler um livro do murakami para se espantar com a imaginação do sujeito. amazing!!! quero ir passear nesse lugar onde eles passeiam para criarem esses mundos maravilhosamente fisgantes hihihihi.

o que eu especialmente adoro em murakami é o jeito com que ele constrói o que ele quer contar. é tão cheio de nuances e suavidades e cores. tenho vontade de ler e reler e reler infinitamente. li o livro de uma enfiada só, ansiando por saber dos fatos e agora tenho vontade de reler com mais vagar, saboreando essas passagens especiais. livros como kafka e a sputinik ficam sempre cheios de post-its amarelinhos risonhos a marcar os trechos especiais para que eu possa sempre lê-los novamente. e cada leitura é um momento de deleite, às vezes a única sensação refrescante numa árida tarde de trabalho difícil de ser parido!

escolhi dois trechos para compartilhar aqui:


"torno a olhar o seu busto. a área, arredondada e saliente, se projeta e se retrai lentamente, como ondas em movimento. imagino uma vasta extensão de mar varrida por uma garoa fina. sou um navegante solitário em pé no convés, e ela é o mar. o céu se reveste de uniforme tonalidade cinza e lá, bem adiante, se junta com o mar, que também está cinzento. é muito difícil distinguir céu de mar. ou o próprio navegante do mar. as coisas reais das coisas emocionais."

"o que eu busco, isto é, a força que eu busco, não se relaciona com vitórias ou derrotas. tampouco procuro paredes capazes de rechaçar forças externas. o que eu busco é a força que me permita suportar com serenidade a injustiça, a falta de sorte, a tristeza, o mal-entendido e a incompreensão."

agradeço especialmente à pri e ao cris que me fizeram presente desse tesouro!

e, à querida karen, gostaria de presentear com um desenho que fiz que - embora não fosse a intenção original - não consigo deixar de pensar que é a minha versão para a pintura "kafka à beira-mar" citada no livro!


SERVIÇO
título Kafka à beira-mar
autor Haruki Murakami
editora Alfaguara
páginas 571 páginas
título original Umibe no Kafuka
tradução de Leiko Gotoda
preço médio R$ 54,90

quinta-feira, abril 10, 2008

The three cornered world - Natsume Soseki

Outro livro de Natsume Soseki. Muito bonito. A história é bem singela e narra as impressões de um artista que viaja até uma estação termal onde se hospeda em um pequeno hotel e os seus encontros com a filha do proprietário do lugar, O-nani, uma mulher com personalidade forte e um passado marcado por uma relação amorosa triste.
Apesar da Guerra da Manchúria ser mencionada e estar bem presente no final da história, é um dos livros mais “otimistas” de Soseki que li.
O personagem principal deve ser o ideal de artista do autor, ele é descompromissado, um andarilho em busca de inspiração que vive segundo o adágio do “Carpe Diem”, muito diferente do próprio Soseki que tinha uma vida mais complicada e atormentada por questões financeiras e conjugais.
O nome do livro em japonês (“Kusa Makura”) daria algo como “Travesseiros de relva” (como foi mantido em francês), mas o tradutor para o inglês preferiu usar uma expressão encontrada no texto, não tenho nada contra a sua decisão, mas que a expressão original era mais bonita, ah, isso era!

Eis alguns dos primeiros parágrafos, a profissão de fé do protagonista:

“Enquanto subia a trilha da montanha, comecei a refletir.
Aborde tudo racionalmente e você se tornará duro. Deixe-se levar pelo fluxo das emoções e será arrastado com a corrente. Dê rédeas aos seus desejos e você se sentirá desconfortavelmente confinado. Este nosso mundo não é um lugar muito agradável para se viver.
Quando o desconforto aumenta, você ficará inclinado a se mudar para um lugar onde a vida seja mais fácil. É somente quando percebe que ela não será mais agradável independente da altura que atinja que um poema pode nascer ou uma pintura pode ser criada.
A criação deste mundo não é o trabalho de um deus ou de um demônio, mas das pessoas comuns ao nosso redor, aqueles que vivem do outro lado da rua, ou ao nosso lado, movendo-se enquanto ocupam-se com seus afazeres cotidianos. Você pode achar que este mundo criado por pessoas comuns é um lugar horrível para se viver, mas para onde mais poderíamos ir? Mesmo que houvesse outro lugar, só poderia ser um lugar fora da esfera humana, e quem pode dizer se não seria um mundo ainda pior do que este?
Não há como escapar deste mundo. Portanto, se você acha a vida difícil, não há o que fazer além de procurar manter-se o mais calmo possível durante os períodos desagradáveis, mesmo que o consiga por períodos bem curtos, e assim tornar a breve duração da existência suportável. É aqui que a vocação do artista começa a existir, é aqui que o pintor recebe a incumbência divina. Agradeça aos céus por todos aqueles que, pelos meios tortuosos de sua arte, trazem tranqüilidade para o mundo e enriquecem os corações dos homens.
Despoje o mundo de todos aqueles cuidados e preocupações que o tornam um lugar desagradável para se viver e, ao invés dele, imagine um mundo de graciosidade. Agora você possui música, uma pintura, ou poema, ou escultura. Iria além e diria que não é necessário transformar essa visão em realidade. Apenas invoque essa imagem na frente de seus olhos e a poesia irá brilhar e canções irão fluir. Antes de passar seus pensamentos para o papel, você deve sentir o cristal retinir como um pequeno sino e elevar-se em seu interior, toda a gama de cores irá, por si só, gravar-se no olho de sua mente com todo o seu brilho, embora a tela permaneça intocada em seu cavalete. É suficiente que você seja capaz de adotar essa forma de considerar a vida e ver este mundo decadente, sujo e vulgar, purificado e belo na câmera de sua alma. Mesmo o poeta cujos pensamentos nunca foram expressos em um único verso, ou o pintor que não possui tintas e nunca pintou sequer um pedaço de tela, pode obter a salvação e libertar-se dos desejos e paixões terrenos. Eles podem entrar em um mundo de imaculada pureza quando quiserem e, desfazendo-se do jugo da avareza e do egoísmo, são capazes de construir um universo inigualável. Por isso, eles são mais felizes do que os ricos e famosos, do que qualquer senhor ou príncipe que já viveu, mais felizes do que todos aqueles para os quais este mundo vulgar prodigaliza suas afeições.”


sábado, março 01, 2008

Botchan - Natsume Soseki

Natsume Soseki é um autor japonês de que gosto bastante. Fazia algum tempo que não o lia. Estou retornando a alguns velhos conhecidos, como Kawabata e Saramago e tem sido prazeroso.
Botchan é um dos primeiros livros de Soseki e conta a história bem humorada de um rapaz que se forma em física em uma faculdade de Tóquio e é contratado para dar aulas em uma província bem distante, no sul do arquipélago. Ele tem um temperamento forte e impulsivo que lhe rende muitas reprimendas na infância e que, adulto, torna-se o estopim de conflitos com os outros professores. O rapaz é do gênero “grosseirão com bom coração” e passa por várias vexações por causa de sua falta de tato, mas ele não parece se incomodar com as convenções sociais e fica sempre chocado com a insinceridade, a mentira e a afetação de seus colegas e das pessoas que encontra no vilarejo.
"Botchan" é uma palavra japonesa difícil de traduzir, é uma forma de chamar os garotos quando eles são pequenos que é, ao mesmo tempo, carinhosa e revela uma posição subordinada da pessoa que a usa, como Kiyo, a empregada da família do personagem em questão. Seria parecido com a forma como os escravos chamavam os filhos de seus senhores: “sinhozinho” (lembrem-se de que se trata de uma aproximação forçada, não exata!).
O livro é bastante popular no Japão e deve ser muito mais interessante e divertido em japonês, o tradutor mesmo escreve que é difícil encontrar equivalentes em inglês para todos os trocadilhos dos diálogos.
No trecho abaixo, o rapaz vai pescar com dois outros professores para os quais ele deu os nada lisonjeiros apelidos de “Camisa Vermelha” e “Palhaço”:

“O barqueiro remava em direção ao mar com batidas lentas e calmas, mas quando olhei para trás, descobri que já estávamos tão longe que a praia parecia bem pequena na distância. O pagode do templo Kohakuji afunilava-se como uma agulha acima das árvores e, do outro lado, a ilha de Aojima flutuava sobre a água. Ninguém vivia naquela ilha, olhando de mais perto, eu descobri a razão. Ela era apenas um aglomerado de rochas e pinheiros. Camisa Vermelha observou como a paisagem era delicada e Yoshikawa, o Palhaço, concordou. Eu não sabia se ela era delicada ou não, mas certamente dava uma sensação agradável olhar para ela. Era bom estar ali naquela vasta expansão de água, sentindo a brisa do mar. Eu estava morrendo de fome.
'Olhe para aquele pinheiro', Camisa Vermelha disse para Yoshikawa. 'O tronco é perfeitamente reto e a copa se espalha como um guarda-chuva. Ela deveria ter sido pintada por Turner'.
O Palhaço respondeu que ela 'tinha saído de um Turner', e que a curva era perfeita. Eu não tinha qualquer idéia do que 'Turner' significava, mas achando que poderia viver muito bem sem aquele conhecimento, fiquei quieto.
O barco deu uma volta do lado direito da ilha. Não havia ondas. Era tão calmo, de fato, que era difícil dizer que você estava no mar. Eu estava tendo bons momentos, graças ao Camisa Vermelha. Se fosse possível, eu gostaria de desembarcar na ilha e ver como ela era, apontando para uma rocha, perguntei ao barqueiro se o barco não poderia ancorar ali. Camisa Vermelha disse que aquilo poderia ser feito, mas que a pescaria não seria muito boa tão próximo da ilha. Então Yoshikawa se dirigiu a Camisa Vermelha e veio com a desnecessária sugestão de chamar o lugar de Ilha de Turner. Camisa Vermelha achou a idéia boa e disse que era como iríamos chamá-la a partir daquele momento. Esperei não ter sido incluído naquele 'nós'. Ilha de Aojima estava perfeito para mim.
'Imagine a Madonna de Rafael em pé sobre aquela rocha', disse Yoshikawa. 'Daria uma pintura maravilhosa. Você não concorda?'
'Não vamos falar sobre Madonnas', respondeu Camisa Vermelha, e deu uma risadinha desconcertantemente efeminada. Yoshikawa, lançando um olhar em minha direção, disse que estava tudo bem, pois ninguém estava ouvindo. E voltou-se para o outro lado de propósito com um sorrisinho afetado. Aquilo fez com que me sentisse desconfortável. Madonna ou beladona, dava tudo na mesma para mim. Ele poderia colocar o que quisesse sobre as rochas. Mas dizer coisas que outras pessoas não entendiam e, além disso, não se importar que elas ouvissem porque elas não as compreendiam, era grosseiro. Apesar de seu comportamento, Yoshikawa ainda tinha coragem de dizer que era de Tóquio. Madonna provavelmente era o apelido da geisha preferida de Camisa Vermelha. Bem, se ele queria colocar uma geisha debaixo de um pinheiro em uma ilha desabitada, ele que o fizesse. E o Palhaço poderia pintá-la a óleo e mostrar o quadro em uma exposição.”

sábado, janeiro 26, 2008

Chroniques d'Asakusa - Yasunari Kawabata

Eu não visitei Asakusa (um distrito de Tóquio) e sempre lamentei esse fato. Tive apenas um dia para passear na cidade e decidi gastá-lo indo até outro bairro famoso no universo literário japonês, Ueno. Fui até lá na parte da tarde, queria conhecer o zoológico mais antigo do Japão e ver o panda que é uma de suas grandes atrações, mas o zoo estava fechado. Ele fica no meio de um parque e, ao seu redor, há vários museus, inclusive o Museu Nacional de Tóquio, não perdi tempo, passei a tarde vendo os quadros de uma exposição de pintores flamengos em um pequeno museu na frente da estação e depois atravessei a rua e fui ver os artefatos egipícios que estavam em exposição no Museu Nacional naquela época. Andei, andei, peguei o trem e voltei para o hotel e, no dia seguinte, dirigi-me novamente para Ueno de manhã cedo. Estava decidida a ver o panda. E vi. E era algo melancólico vê-lo através do vidro espesso comendo bambu sentado sobre o chão revestido de piso cerâmico.
Dei uma volta pelo zoo, tomei uma fanta verde fluorescente de sabor melão (de que não gostei), saí do zoológico, desci uma rua ao lado da estação e encontrei um sebo onde comprei um livro de gravuras em francês para presentear O. e um livro com fotos do acervo do Museu Nacional, voltei para o hotel e dei adeus a Tóquio.
Lamento não ter ido até Asakusa, ao menos para ver a grande lanterna do Kaminarimon. Depois de ler o livro de Kawabata, lamentei ainda mais não ter ido lá conferir como é o bairro nos dias de hoje. No período retratado por ele, os anos trinta, Asakusa é o bairro das prostitutas, dos vagabundos, malandros e mendigos. Era o inferninho de Tóquio, um lugar a ser evitado pelas pessoas de boa reputação, hoje as coisas mudaram muito e Asakusa tornou-se uma das atrações turísticas mais tradicionais da cidade.
Este livro de Kawabata não é um romance, mas uma coleção de notas e quadros que caracterizam Asakusa no período. Não é um de meus preferidos (que são O país das Neves e O som da montanha), mas vale por nos fazer saborear um pouco da história do Japão, e há algumas imagens bonitas, como só Kawabata sabe escrever:

"Uma luz rosa refletia-se sobre o asfalto que brilhava como uma chapa de chumbo. Pontos vermelhos dispersos aqui e ali flutuavam ao acaso sobre a cidade. Ouvia-se o eco do bonde. Eram cinco horas da manhã. À luz irisada do sol, a urina da véspera desenhava longas faixas paralelas no asfalto. "

(Eu sei, urina na rua não é algo poético, mas tiro o meu chapéu para quem consegue usar essa imagem como o Kawabata.)

sábado, janeiro 19, 2008

The woman in the dunes - Kobo Abe

Ando lendo com a voracidade da época do colégio, fazia algum tempo que isso não acontecia. Enquanto pesquisava para meu mestrado e doutorado, não tinha tempo para ler as coisas de que gostava, praticamente não lia muita literatura, mas livros longuíssimos sobre um ou outro aspecto do século XVIII e alguns tratados de pensadores obscuros (em vários sentidos), às vezes era tão chato que sentia vontade de fechar os olhos e de não dirigi-los para nada impresso sobre uma folha de papel pelo resto da minha vida. Uma época de que não sinto saudades.
Este foi o primeiro livro do Kobo Abe que li, o livro sempre esteve na estante, mas fui lê-lo depois de assistir a um filme baseado na obra, ele foi filmado em 64 e ganhou um prêmio do júri no festival de Cannes (o ator principal é o mesmo de Hiroshima mon amour, outro grande filme). A versão filmada é muito boa e bastante fiel ao livro que conta a história de um professor e entomologista amador, Junpei Niki, que viaja até uma praia cheia de dunas para coletar insetos. Ele perde o último ônibus e os habitantes do vilarejo local oferecem-lhe alojamento na casa de uma mulher que mora sozinha, a casa praticamente fica em um buraco circundado pela areia e é preciso descer por meio de uma escada de cordas. Muitas casas estão na mesma situação e para evitar que elas sejam engolidas pelas dunas, seus habitantes devem trabalhar todas as noites recolhendo areia com pás. Contra a sua vontade, Junpei vê-se preso dentro do buraco e deve trabalhar para receber água, ou seja, para manter-se vivo. Seu relacionamento com a mulher, nunca nomeada, que o trata muito bem, mas que ele considera muito simples e condicionada a aceitar aquele tipo de existência, desenvolve-se de forma imprevista.
A areia serve de ensejo para várias reflexões sobre a vida e a existência humana.

"Eles mencionaram uma família de classe média agrícola que havia acrescentado terras à sua propriedade, comprado máquinas e estavam indo muito bem quando o filho mais velho de repente abandonou o lar. Ele era um jovem quieto, trabalhador e seus pais ficaram totalmente surpresos. Eles não sabiam o motivo. Nos vilarejos do campo você tem obrigações sociais e reputação a zelar, portanto, realmente deveria haver uma razão para o herdeiro da família abandonar o lar...
- Sim, certamente. Uma obrigação é uma obrigação.
- Parece que um dos pais se deu ao trabalho de encontrar o jovem e ouvir sua história. Ele não estava vivendo com uma mulher e não parecia coagido por débitos ou prazeres, não havia nenhum motivo concreto. Então qual era a razão? E o que o jovem disse não fazia qualquer sentido. Ele parecia incapaz de explicar seu ato muito bem para si mesmo, dizia apenas que ele não podia mais suportar aquilo.
- Realmente há gente estúpida no mundo, não é verdade?
- Mas quando você reflete sobre isso, você entende seus sentimentos. Quando os agricultores aumentam sua área de cultivo, eles têm muito mais trabalho a fazer. No final, não há fim para as suas atividades e eles acabam com muito mais coisas para fazer. Entretanto, o agricultor ao menos tem um retorno em batatas e arroz. Comparado com o trabalho de um agricultor, remover areia é como tentar empilhar pedras no Rio do Hades, onde os demônios carregam-nas tão rápido quanto você as joga lá dentro.
- Bem, o que acontece com o Rio do Hades no final?
- Nada. É uma punição infernal precisamente porque nada acontece.
- E o que acontece com o filho no final?
- Ele tinha planejado tudo e provalmente até mesmo arranjado um emprego antes de agir.
- E o que ele fez?
- Ele foi lá e começou a trabalhar.
- E depois?
- Depois disso, ele provavelmente recebia seu dinheiro no dia de pagamento e aos domingos eu acredito que ele vestia uma camisa limpa e ia ao cinema."


quinta-feira, julho 26, 2007

After the quake - Haruki Murakami

Demorei um pouco para ler este livro do Murakami, temia que ele fosse meio baixo astral porque foi escrito depois do terremoto de Kobe em 1995, mas estava enganada. O terremoto é apenas mencionado vagamente em cada um dos seis contos que compõem a coletânea, alguém vê a notícia e descobrimos que o personagem morou ou conhece alguém que mora na região e o assunto meio que morre ali. Gostei bastante deles. Murakami trata da solidão e da dificuldade envolvida nos relacionamentos pessoais sempre de modo muito delicado.

Ufo em Kushiro, é sobre um rapaz que é deixado pela esposa e vai até Hokkaido levar um pacote para a irmã de um amigo e para se esquecer de sua situação.

Paisagem com Ferroplano, mostra o relacionamento de um pintor de meia idade que gosta de fazer fogueiras com a madeira que encontra na praia e uma garota que fugiu de casa quando era mais jovem.

Todos os filhos de Deus podem dançar, é sobre um rapaz que busca respostas sobre quem é seu pai.

Tailândia, um de meus preferidos, é sobre uma médica que vai até a Tailândia para uma conferência e estende sua estadia em um resort em um local isolado.

Super-sapo salva Tóquio, também é um barato, muito divertido e bonito. Um dia um cara que trabalha em um banco encontra um sapo gigante em seu apartamento que diz que ele precisa ajudá-lo a derrotar "Verme", um ser que vive no subsolo e ameaça destruir a cidade de Tóquio...

Torta de mel, conta a história de três amigos e de seu triângulo amoroso. Também muito terno.

Agora estou sem Murakamis para ler e tenho que esperar...

quinta-feira, junho 14, 2007

After Dark - Haruki Murakami

Este é o último livro traduzido para o inglês do Murakami. Infelizmente, ele durou pouco, eu o li em duas noites. O livro não chega a ser um romance, é quase uma coleção de crônicas sobre personagens que se cruzam em uma noite em Tóquio: uma garota que passa o tempo lendo em redes de fast food ou bares, um rapaz que toca trombone, uma prostituta chinesa espancada e seu agressor, a gerente de um love hotel e ex-pugilista, uma modelo que dorme. O narrador nos conduz às cenas como se dirigisse um filme, ouvimos conversas, nossos olhares são conduzidos para closes e detalhes alheios aos personagens. Há jazz, muito jazz, como trilha sonora. A sensação é a de que estamos diante de um misto de Short Cuts com um filme noir. A cidade também participa da história como um organismo vivo, mas indiferente aos acontecimentos e vidas de seus habitantes.
Murakami gosta de experimentar novas técnicas de narração, ele parece se divertir com isso. Como muitos outros de seus fãs, acho que o livro não apresenta o autor em sua melhor forma, mas é bom e Murakami continua sendo um de meus autores favoritos.


quarta-feira, abril 11, 2007

Blind Willow, Sleeping Woman - Haruki Murakami

Um dos meus últimos Murakamis... Esse livro de contos foi traduzido e publicado nos EUA no ano passado. São 24 contos nos quais o autor se diverte com o leitor, histórias bem ao seu estilo, com direito a mistérios sem solução e uma certa melancolia. Antes de ler o livro, já tinha passado os olhos em uma crítica do Times Literary Supplement no qual o comentador dizia que Murakami, ao contrário de seu hábito, deixava o lado fantasioso de lado nas histórias desse livro. Creio que há alguma verdade nisso. As histórias são mais "pé no chão", muitas vezes mais parecidas com crônicas. A grande maioria trata de pessoas e relacionamentos. E já existe bastante material aí. Mas talvez seja exagero dizer que não há nada "peculiar" nelas.
Gostei muito de "A folklore for my generation: A pre-history of Late-Stage Capitalism", no qual um antigo colega de classe do narrador conta seu relacionamento com a namorada de adolescência. Já tinha lido a história na New Yorker, ela é muito bonita, doce e terna.
"Dabchick", começa com o narrador percorrendo galerias do esgoto em busca de um lugar onde seria entrevistado para um suposto emprego, não somos informados sobre o gênero de trabalho, mas, como o narrador diz, o pagamento é bom. Após andar por vários minutos em busca de uma porta, ele encontra o homem encarregado de levá-lo até seu chefe, mas antes, ele precisa falar qual é a senha do dia... O diálogo entre os dois é muito divertido e me vi rindo enquanto lia.
Leitura gostosa, mas, como sempre, prefiro seus romances.
Murakami, quando sai seu próximo livro, por favor!! I'm a book junkie!

domingo, março 25, 2007

The elephant vanishes - Haruki Murakami

Esta é uma coletânea de contos do Murakami. São dezessete contos dele reunidos em um livro. O primeiro é praticamente o primeiro capítulo de Wind-up bird. Em seu último livro de contos "Blind Willow, Sleeping woman", o autor mesmo escreve que muitas vezes um conto acaba se transformando em um livro, outro conto, "Barn Burning" tem algo de "Minha querida Sputnik"... A impressão que você tem ao ler os contos, é a de que eles poderiam servir de prólogo para um novo romance. São bons, mas acho que os personagens do Murakami se revelam melhor em histórias mais longas, é como se eles precisassem de espaço para se exporem e nos conquistarem de vez. Claro que há muitas pessoas que discordam da minha opinião, como é possível ler nas críticas feitas à sua última coletânea na Amazon.
Já tinha lido "Lederhosen", a história da mulher que descobre que não gosta do marido e pede divórcio quando viaja até a Alemanha e decide comprar uma daquelas calças/shorts de couro típicos do país, em uma New Yorker antiga. Alguns de seus contos foram publicados pela revista em diferentes momentos.
Os contos de que mais gostei foram "The little green monster" e "A slow boat to China", este último conto é um primor! O narrador fala sobre os chineses que cruzaram seu caminho em diferentes momentos de sua vida com nostalgia: um professor que entrega provas em um exame quando ele era criança, uma garota com quem trabalha nas férias no primeiro ano da universidade e um garoto que reencontra já mais velho vendendo enciclopédias. Muito tocante, talvez porque as pessoas que conhecemos algum dia, mesmo aquelas para as quais não demos muita importância, servem de pontos de referências para a história de nossas vidas.

quarta-feira, março 14, 2007

A wild sheep chase (Caçando Carneiros) - Haruki Murakami

Mais um Murakami se vai.
Há sempre um sentimento de melancolia quando um bom livro chega ao seu fim, especialmente porque eu li sua continuação, Dance, Dance, Dance, antes de A wild sheep chase, ou Caçando Carneiros, como foi traduzido no Brasil.
O mesmo personagem de Dance, quatro anos mais novo, narra sua busca por um carneiro muito especial que escolhe algumas pessoas para serem seus hospedeiros e realizarem seus planos. Sua busca o leva até Hokkaido, no norte do Japão, é lá que ele se hospeda no Dolphin Hotel e conhece o Sheep Professor. É em Hokkaido, também, que ele encontra o Sheep Man...
Apesar da história inusitada, Murakami fala da solidão, da perda e do sentimento de falta de sentido da vida com muita delicadeza. Depois deste livro, restam duas coletâneas de contos para eu ler. Espero que haja mais alguma coisa sendo traduzida para alguma língua inteligível, assim não me sentirei orfã de Murakamis....

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Haruki Murakami - Dance Dance Dance

"My peak? Would I even have one? I hardly had had anything you could call a life. A few ripples. Some rises and falls. But that's it. Almost nothing. Nothing born of nothing. I'd loved and been loved, but I had nothing to show. It was a singularly plain, featureless landscape. I felt like I was in a video game. A surrogate Pacman, crunching blindly through a labyrinth of dotted lines. The only certainty was my death.
No promises you're gonna be happy, the Sheep Man had said. So you gotta dance. Dance so it all keep spinning."

Um hotel misterioso em Sapporo no qual vive um homem vestido com uma fantasia de carneiro, um ser primordial, mortes banais ou misteriosas, um ator, algumas prostitutas, uma garota de 13 anos e sua família, este é o universo de Dance, Dance, Dance, história narrada por um homem de 34 anos que trabalha como free lancer para jornais, revistas, etc.

Simpatizei com ele, quando ele diz que seu trabalho é "escavar neve cultural", algo sem sentido, sem paixão, achei que aquilo era uma boa descrição para o que tenho feito até agora. Eu não diria neve, mas capim, eu faço montes de capim pesquisando o século XVIII, capim histórico. Algo não menos inútil.



terça-feira, janeiro 30, 2007

Hard-boiled wonderland and the end of the world

Outro livro do Murakami! Ok, estou virando uma Murakami freak, mas para minha defesa, não achei este livro tão empolgante. São duas histórias paralelas nas quais os personagens não possuem nome. Em Hard-boiled wonderland, seguimos os passos de um homem de 35 anos que trabalha para o Sistema, um tipo de organização governamental que controla a informação, ele é um Calcutec, quer dizer, ele é capaz de processar informações e dividir as funções que deve realizar em seu cérebro, ou seja, ele é um tipo de computador ambulante. Ele é chamado para realizar um trabalho para um velho cientista chamado apenas de "Professor", ele conhece sua neta, que só se veste de pink e, partir desse encontro, ele descobre que sua mente está prestes a ser absorvida por um outro mundo, criado por seu subconsciente. A história deste outro mundo é narrada em The end of the world, ali, o nosso calcutec é um homem que chega em uma cidade cercada por uma muralha e na qual os habitantes devem se desfazer de suas sombras, de suas memórias, nesse lugar, não há violência, nem amor, nem desejos, todos tem uma existência pacífica e funções a desempenhar. O calcutec do mundo real (se é que há algo que possa ser chamado de real nas histórias) recebe a função de Dreamreader na cidade e deve ir para a biblioteca ler sonhos antigos que estão contidos em caveiras de unicórnios todas as noites. A tensão do livro fica por conta do dilema criado pelas duas histórias, pois, para que um dos dois mundos seja preservado, talvez o outro deva deixar de existir...

sexta-feira, janeiro 19, 2007

The wind-up bird chronicle

Continuo lendo Murakami, o grande fã desse autor aqui em casa é meu marido, mas depois de ler "Minha querida Sputnik", não consigo mais parar. Murakami tem dois gêneros de livros, aqueles com histórias onde tudo se passa de acordo com a realidade, como Norwegian Wood e South of the border, West of the sun e aqueles nos quais a história dos personagens se divide entre dois universos paralelos que se interpenetram, caso de Minha querida Sputnik, Kafka on the shore e de Wind-up bird.
Wind-up bird é sobre Toru Okada, um cara comum de trinta anos que vê sua vida mudar radicalmente quando decide deixar o trabalho para pensar no que deseja fazer com sua vida. Ele passa o tempo cuidando da casa e cozinhando. É nesse momento que ele e sua esposa começam a ouvir o canto de um pássaro misterioso que prenuncia acontecimentos muito estranhos.... O gato de Toru desaparece e sua esposa o abandona. Após esses acontecimentos, ele se depara com situações e personagens singulares, como May, a adolescente obcecada pela idéia da morte, Coronel Mamiya, marcado por uma história terrível que se passa nas estepes da Mongólia, as irmãs Creta e Malta Kano...
Ainda gosto mais dos outros livros mencionados acima, mas Murakami é Murakami e ele não desaponta...

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segunda-feira, dezembro 04, 2006

Minha querida Sputnik - Haruki Murakami

É difícil não gostar do escritor japonês Haruki Murakami. É tão fácil gostar de seus personagens! São pessoas comuns, procurando compreender suas vidas e lidar com a solidão. Acho as histórias meio tristes. "Minha querida Sputnik" é triste. É sobre o amor platônico que Sumirê sente por Miu, uma mulher mais velha e misteriosa e sobre a paixão do narrador por Sumirê. Algumas das marcas registradas de Murakami surgem nesta obra: os gatos, mediadores entre a realidade e um outro mundo, as mulheres que desaparecem e as histórias que ocorrem em universos paralelos, como o mundo do outro lado do espelho de "Alice no País das Maravilhas".

É dificil não gostar de Murakami, suas obras deixam transparecer seu bom gosto musical, sua paixão pela Europa, seu interesse pela culinária e pelos bons vinhos, como não gostar dele?

Eis um trecho do livro:

“Então me ocorreu que, apesar de sermos companheiras de viagem maravilhosas, no fundo, não passávamos de duas massas solitárias de metal em suas próprias órbitas separadas. À distância, parecem belas estrelas cadentes, mas, na realidade, não passam de prisões, em que cada uma de nós está trancada, sozinha, indo a lugar nenhum. Quando as órbitas desses dois satélites se cruzam, acidentalmente, podemos estar juntas. Talvez, até mesmo, abrir nossos corações uma à outra. Mas só por um breve momento. No instante seguinte, estaremos na solidão absoluta. Até nos queimarmos completamente e nos tornarmos nada.”


P.S. Obrigada Miki!