segunda-feira, junho 02, 2008

The sun also rises - Ernest Hemingway

O sol também se levanta, outro livro de Ernest Hemingway. Boa história, mas gostei mais das memórias de Paris. Deve ser porque eram de Paris, cidade que ainda vou conhecer. Ah, se vou!
Entretanto, a história começa em Paris onde Jake Barnes encontra seus amigos intelectuais da “geração perdida” em cafés e restaurantes. Ela é sobre boêmios que bebem álcool sob várias formas e nomes, vivem duros e quando têm algum dinheiro gastam-no com estilo.
Jake e seus conhecidos saem da França e vão até a Espanha pescar trutas nas montanhas e depois passam alguns dias em Pamplona para assistir à temporada de touradas. No grupo, há quatro homens e uma mulher, Brett, pela qual três deles são apaixonados. Ela é o elemento perturbador da paz geral e termina nos braços de um toureiro quinze anos mais moço.

Desculpem a simplificação. Acho que não gostei muito do livro. Vou ler Turgenev que Hemingway recomenda que todos leiam.


segunda-feira, maio 26, 2008

Die Verwandlung - Franz Kafka

Quem conhece meu outro blog sabe que ele não foi nomeado em homenagem ao escritor Franz Kafka, mas inspirado no título de um romance do escritor japonês Haruki Murakami.
Talvez decepcione algumas pessoas, mas tenho que confessar que Franz Kafka nunca foi um de meus escritores favoritos, li O Processo e achei aquela história angustiante e opressiva. Nunca fui além de algumas páginas de O Castelo e devo ter lido a Carta ao pai algum dia, mas não me lembro de nenhuma frase.
Die Verwandlung, ou A metamorfose, foi uma agradável surpresa. Resolvi ler a versão bilíngue, alemã-italiana, de O. e gostei bastante da história. Se há algo que admiro em Kafka é a simplicidade e objetividade de sua escrita, características que tornam as situações que ele narra ainda mais bizarras.
Ao contrário do que imaginava, Gregor Samsa, o personagem principal de A metamorfose, não se transformou em uma barata como li em alguns lugares no passado. O primeiro parágrafo diz claramente que Gregor Samsa acordou e descobriu que se transformara em um "inseto monstruoso", ponto.
Li quase tudo em alemão, às vezes dava um olhada na versão italiana, mas descobri que preciso melhorar muito meu vocabulário nessa última língua...

domingo, maio 18, 2008

A moveable feast - Ernest Hemingway

Graças à recomendação feita no post sobre um livro de Scott Fitzgerald, não só descobri que os livros de Ernest Hemingway da biblioteca de casa estavam sendo consumidos pelas traças, mas também li um texto gostoso.
Tinha lido pouca coisa do Hemingway, apenas O Velho e o mar e O jardim do Éden, ambos quando estava no ginásio, há muito tempo atrás.
A moveable Feast (o título parece ter sido traduzido como Paris é uma festa em português) é uma obra póstuma (como O jardim do Éden) e contém as memórias de Hemingway no começo de sua carreira como escritor em Paris. Nelas, ele conta sua vida com Hadley, sua primeira esposa, e seus encontros com figuras famosas no cenário literário da época, entre elas: Gertrude Stein, James Joyce, Ezra Pound e Scott Fitzgerald. Um dos primeiros encontros com este último, aliás, por pouco não foi o único, pois quando Fitzgerald bebia, parecia ficar insuportável.
Hemingway fala sobre a sua pobreza naquele período com nostalgia: o quarto alugado em um bairro pobre de Paris não tinha banheiro ou sala de banho e às vezes ele pulava uma refeição para economizar. Mas não era bem a idéia de pobreza que conhecemos, pois os Hemingway não abriam mão de ter uma empregada para cuidar do filho e sempre que economizavam algo, passavam férias em algum lugar na Europa.
Devia ser bom ser um escritor promissor em Paris no começo do século passado, entrar em cafés onde havia sempre um conhecido disposto a pagar um bebida, escutar os garçons perguntarem se o trabalho tinha sido bom naquele dia, observar os pescadores ao longo dos rios, acreditar no próprio talento e, mesmo que ele ainda não fosse reconhecido, sentir que a vida ainda era boa...
Eis o começo de um dos capítulos:

“Quando a primavera chegava, mesmo a falsa primavera, não havia problemas exceto o de onde ser mais feliz. A única coisa que poderia estragar um dia eram as pessoas, e se você pudesse evitar compromissos, cada dia era ilimitado. As pessoas eram sempre as limitadoras da felicidade, com exceção daquelas poucas que eram tão boas quanto a própria primavera.”

segunda-feira, abril 28, 2008

The great Gatsby - F. Scott Fitzgerald

“Comecei a gostar de New York, da vibrante, atrevida sensação de sua noite e da satisfação que o tremeluzir de homens e mulheres proporciona aos olhos inquietos. Gostava de subir a 5ª Avenida e escolher mulheres românticas na multidão e imaginar que em alguns minutos eu entraria em suas vidas, e que ninguém nunca saberia ou desaprovaria. Às vezes, em minha mente, eu as seguia até seus apartamentos nas esquinas de ruas escondidas e elas se voltavam e sorriam antes de desaparecerem em uma escuridão morna através de uma porta. Algumas vezes, no mágico entardecer metropolitano, eu sentia uma angustiante solidão, também a sentia nos outros – pobres jovens funcionários que demoravam-se na frente de janelas esperando até que fosse hora de um jantar solitário em um restaurante – jovens funcionários ao pôr do sol, desperdiçando os mais pungentes momentos da noite e da vida.”

Depois de Tender is the night, The great Gatsby.
F. Scott Fitzgerald é um grande escritor, gosto da forma como ele descreve as cenas, elas são de grande beleza plástica, romântica, melancólica. A sensação que tenho enquanto leio seus livros é semelhante àquela que experimento quando uma festa acaba.
Gatsby é o rapaz pobre que constrói uma fortuna usando meios escusos. Ele tem uma bela casa onde dá festas concorridas quase todas as noites e parece ter uma vida invejável, entretanto, a única coisa que deseja é reconquistar uma paixão de juventude. Bela e triste história.

sábado, abril 19, 2008

Les Somnambules - Hermann Broch

Outro livro de Hermann Broch. Ele é aquele tipo de autor que escreve com a intenção de capturar o espírito de uma época e também de usar os romances para expor uma tese. Hoje em dia acho que ninguém mais faz isso e também há poucos leitores para obras assim, mas Broch escreve de forma interessante, mistura teorias sobre arte, literatura e filosofia em seus textos. É preciso ter um certo fôlego para ler Os sonâmbulos, mas depois que a leitura engrena, é difícil deixá-la de lado. O livro é constituído de três grandes partes separadas em períodos distintos entre os anos de 1888-1918, a primeira, 1888 - Pasenow ou o romantismo, conta a história de um militar dividido entre seus deveres familiares, a observação dos valores da sociedade e a fidelidade ao exército; a segunda, 1903 – Esch ou a anarquia, conta a história de um contador com tendências comunistas e, a última, 1918 – Huguenau ou o realismo, é sobre um soldado que deserta durante a guerra e se instala em uma pequena cidade usando seus conhecimentos financeiros e “esquemas” capitalistas para levantar alguns fundos para manter-se. Na última parte, os dois protagonistas das primeiras histórias se encontram e seus destinos são profundamente ligados.
O romance é bem triste. Cada um dos personagens representa um momento histórico, filosófico e moral do período. Pasenow é aquele que procura observar as crenças morais da sociedade e das instituições; Esch já não é capaz de fazer isso como desejaria e por isso vive em conflito e, por fim, Huguenau é aquele que não se importa com a moralidade ou ideais, ele é o homem totalmente racional e sem fidelidades, o capitalista preocupado com seu próprio bem-estar e, por isso mesmo, o mais perigoso de todos, como mostra o desenlace da história.
Broch narra a corrupção dos valores, a decadência progressiva de uma época. Livros que tratam de longos períodos de tempo ou que narram a história de gerações de uma família parecem ser sempre pessimistas, há sempre uma degradação. Algo muito humano, não é mesmo? Visto que nós temos o hábito de olhar para o passado com nostalgia e, não raro, dizemos que aqueles sim, eram bons tempos!

quinta-feira, abril 10, 2008

The three cornered world - Natsume Soseki

Outro livro de Natsume Soseki. Muito bonito. A história é bem singela e narra as impressões de um artista que viaja até uma estação termal onde se hospeda em um pequeno hotel e os seus encontros com a filha do proprietário do lugar, O-nani, uma mulher com personalidade forte e um passado marcado por uma relação amorosa triste.
Apesar da Guerra da Manchúria ser mencionada e estar bem presente no final da história, é um dos livros mais “otimistas” de Soseki que li.
O personagem principal deve ser o ideal de artista do autor, ele é descompromissado, um andarilho em busca de inspiração que vive segundo o adágio do “Carpe Diem”, muito diferente do próprio Soseki que tinha uma vida mais complicada e atormentada por questões financeiras e conjugais.
O nome do livro em japonês (“Kusa Makura”) daria algo como “Travesseiros de relva” (como foi mantido em francês), mas o tradutor para o inglês preferiu usar uma expressão encontrada no texto, não tenho nada contra a sua decisão, mas que a expressão original era mais bonita, ah, isso era!

Eis alguns dos primeiros parágrafos, a profissão de fé do protagonista:

“Enquanto subia a trilha da montanha, comecei a refletir.
Aborde tudo racionalmente e você se tornará duro. Deixe-se levar pelo fluxo das emoções e será arrastado com a corrente. Dê rédeas aos seus desejos e você se sentirá desconfortavelmente confinado. Este nosso mundo não é um lugar muito agradável para se viver.
Quando o desconforto aumenta, você ficará inclinado a se mudar para um lugar onde a vida seja mais fácil. É somente quando percebe que ela não será mais agradável independente da altura que atinja que um poema pode nascer ou uma pintura pode ser criada.
A criação deste mundo não é o trabalho de um deus ou de um demônio, mas das pessoas comuns ao nosso redor, aqueles que vivem do outro lado da rua, ou ao nosso lado, movendo-se enquanto ocupam-se com seus afazeres cotidianos. Você pode achar que este mundo criado por pessoas comuns é um lugar horrível para se viver, mas para onde mais poderíamos ir? Mesmo que houvesse outro lugar, só poderia ser um lugar fora da esfera humana, e quem pode dizer se não seria um mundo ainda pior do que este?
Não há como escapar deste mundo. Portanto, se você acha a vida difícil, não há o que fazer além de procurar manter-se o mais calmo possível durante os períodos desagradáveis, mesmo que o consiga por períodos bem curtos, e assim tornar a breve duração da existência suportável. É aqui que a vocação do artista começa a existir, é aqui que o pintor recebe a incumbência divina. Agradeça aos céus por todos aqueles que, pelos meios tortuosos de sua arte, trazem tranqüilidade para o mundo e enriquecem os corações dos homens.
Despoje o mundo de todos aqueles cuidados e preocupações que o tornam um lugar desagradável para se viver e, ao invés dele, imagine um mundo de graciosidade. Agora você possui música, uma pintura, ou poema, ou escultura. Iria além e diria que não é necessário transformar essa visão em realidade. Apenas invoque essa imagem na frente de seus olhos e a poesia irá brilhar e canções irão fluir. Antes de passar seus pensamentos para o papel, você deve sentir o cristal retinir como um pequeno sino e elevar-se em seu interior, toda a gama de cores irá, por si só, gravar-se no olho de sua mente com todo o seu brilho, embora a tela permaneça intocada em seu cavalete. É suficiente que você seja capaz de adotar essa forma de considerar a vida e ver este mundo decadente, sujo e vulgar, purificado e belo na câmera de sua alma. Mesmo o poeta cujos pensamentos nunca foram expressos em um único verso, ou o pintor que não possui tintas e nunca pintou sequer um pedaço de tela, pode obter a salvação e libertar-se dos desejos e paixões terrenos. Eles podem entrar em um mundo de imaculada pureza quando quiserem e, desfazendo-se do jugo da avareza e do egoísmo, são capazes de construir um universo inigualável. Por isso, eles são mais felizes do que os ricos e famosos, do que qualquer senhor ou príncipe que já viveu, mais felizes do que todos aqueles para os quais este mundo vulgar prodigaliza suas afeições.”


quinta-feira, abril 03, 2008

The guiltless - Hermann Broch

Outra vez foi o Milan Kundera quem me conduziu até um autor, agora, Hermann Broch, filho de judeus austríacos que foi educado para administrar a indústria têxtil da família, mas que no final deixou tudo para estudar filosofia e matemática e viver como escritor, e um grande escritor, diga-se de passagem. Comecei pelo seu livro mais fino (não que isso fosse o critério para a escolha) para ter uma idéia de seu estilo. Também tenho a versão em alemão que peguei no ano passado quando a escola doou alguns livros. A idéia era ler o original e comparar com a versão em inglês, mas a história estava tão interessante e o método era tão lento que acabei desistindo e lendo em alemão mesmo.
Como o autor explica, o livro foi baseado em alguns contos que ele havia escrito e aos quais foram juntados outros para criar uma única história. Ela narra o encontro e o relacionamento de algumas pessoas na Europa antes da segunda Guerra. Segundo Hermann Broch, sua intenção era mostrar como a indiferença de personagens como Andréas, seu protagonista, foi um dos fatores que agravaram a situação da Alemanha. Os “inocentes” do título são aqueles que se negaram a assumir a culpa pela deterioração dos valores na Europa e limitaram-se a viver de forma indolente na esfera de seu universo particular. Entretanto, todos os personagens - a velha baronesa, sua filha, Zerline, a empregada e o próprio Andréas - pagam preços altos por sua indiferença, todos vivem, ironicamente, carregando o fardo de suas ações.

Este é um trecho da confissão de culpa feita por Andréas quase no final do livro:

“Indiferente ao sofrimento alheio, indiferente ao nosso destino, indiferente ao Eu no homem, à sua alma. Conseqüentemente, torna-se uma questão de indiferença quem é arrastado para o local de execução primeiro. Você hoje, eu amanhã.”

Terrível, não?

terça-feira, março 25, 2008

Nichts als Gespenster - Judith Hermann

Faz já algum tempo que terminei o segundo livro da Judith Hermann, Nichts als Gespenster (Nada além de fantasmas), ainda não vi o filme, mas acho difícil filmar algo com os contos que não se limite a pequenos quadros nos quais os personagens passam a maior parte do tempo calados enquanto fumam cigarros e bebem café (como no livro anterior, não há um conto no qual os personagens não fumem pelo menos um cigarro ou bebam uma xícara de café ou chá).
Um triângulo amoroso na Alemanha, um casal na Islândia, uma filha com os pais em Veneza, um casal de amigos na República Tcheca, namorados em um bar no deserto texano, conhecidos comemorando o Natal em Praga e um casal de amigos músicos que vai até a Noruega para apresentar-se em um festival que é cancelado. Judith Hermann certamente é cosmopolita, conhece vários pontos do globo! Os personagens estão todos na casa dos trinta, têm empregos alternativos/criativos e tempo e família não fazem parte de suas preocupações cotidianas, pois eles viajam e decidem ficar ou não conforme lhes dê na telha. Eles também nunca estão seguros sobre o que sentem, os relacionamentos são ambíguos, inconclusos. O que é engraçado é perceber que apesar dos personagens estarem sempre em movimento, pelo menos em países diversos, eles passam a maior de suas estadas dentro de quartos ou apartamentos e nunca estão à vontade nos novos ambientes. Se a idéia do cosmopolita é a daquela pessoa que sente-se bem em qualquer lugar que esteja, os personagens da autora são a sua versão contrária.
Eu fiquei me perguntando se minha geração (a trintona) é assim: autocentrada, apática, indecisa, ambígua, e fiquei triste ao constatar que talvez EU seja assim, (segundo O., uma enxada nas mãos e alguns filhos pendurados na saia acabam com esse tipo de frescura), mas psicologia barata à parte, até cheguei a gostar de uma ou duas histórias, mas não é meu tipo de leitura. Nunca gostei de espelhos...

quinta-feira, março 13, 2008

Travels with a donkey - Robert Louis Stevenson

No livro sobre a França que li no ano passdo, este livro de R. L. Stevenson era mencionado e como ele estava na estante e já tinha pensado em lê-lo, resolvi colocar o pensamento em prática.
Nele, Stevenson narra sua viagem de doze dias pela região montanhosa de Cévennes no sul da França. O burrinho do título é uma fêmea que o escritor adquire no começo da viagem e que ele vende ao seu final. Modestine (esse é seu nome) carrega os pertences e a comida do autor que não monta sobre ela, mas caminha ao seu lado e lhe dá vergastadas quando ela não trota com muita boa vontade. (Os defensores dos animais provavelmente iriam reprová-lo, mas teriam que entender que é difícil ser paciente quando é preciso chegar em um vilarejo antes de escurecer para evitar dissabores maiores e se levarem em consideração que uma pessoa andando sozinha é mais rápida do que outra caminhando com um burro.)
Stevenson escreve sobre suas dificuldades de viagem como as condições precárias dos albergues e a má vontade das pessoas para quem pede informações. Em um povoado, as crianças mostram-lhe a língua e ninguém lhe abre a porta a noite, mas é compreensível, na época em que ele viaja, no final do século XIX, a região de Cévennes era bem isolada e a vida era outra: sem eletricidade, meios de comunicação rápidos e com muitas superstições.
As pessoas achavam seu projeto ousado e curioso, mas creio que hoje em dia seria fácil fazer o trajeto de bicicleta.
Como sempre ocorre quando leio relatos de viagens feitas em um ritmo menos frenético do que nos tempos atuais, fiquei nostálgica. Gostaria de sentir o gostinho de viajar no ritmo dos cavalos, (burros) e navios! Vocês não?

****

Achei curiosa a descrição que Stevenson faz de como era preparada uma bebida feita com uvas chamada “a parisiense” que ele bebe em um jantar com uma família em St. Jean de Calberte no final de sua viagem. As videiras locais sofriam com a Phylloxera e ao invés de vinho, eles oferecem esse suco de uvas meio fermentado:

“A phylloxera estava na vizinhança e ao invés de vinho, bebemos um sumo mais econômico de uvas no jantar, A Parisiense, como eles o chamam. Ele é feito colocando-se a fruta inteira na barrica com água. Os bagos fermentam um a um e estouram. O que é bebido durante o dia é colocado na água durante a noite. Então, sempre com um outro balde do poço e outros bagos explodindo e fornecendo seu vigor, uma barrica de “Parisiense” pode durar até a primavera para uma família. A bebida é, como o leitor pode antecipar, bem fraca, mas muito agradável para o paladar.”


domingo, março 09, 2008

Kafka e a Boneca Viajante


Ah, sim! Ia começar dizendo que não me lembrava de onde foi o pontapé inicial de toda essa história, mas acabo de me lembrar!

Por capricho do destino, conheci uma das donas de uma simpática livraria no Paraíso chamada "Rato de Livraria". Assino sua newsletter e, sim, foi em uma delas que tomei conhecimento de um pequenino livro chamado "Kafka e a Boneca Viajante".

Bom, como você bem pode estar imaginando, só o título já me causou uma certa agitação: Kafka? Aquele escrito seriíssimo e... uma boneca viajante?!?!?!??! COMO ASSIM??? Bom, fui correndo os olhos pela sinopse e descobri que se tratava de uma história pouco conhecida à respeito do famoso autor: quase no final da vida, precisamente um ano antes de morrer (ele morreu jovem, aos 41 anos, de tuberculose - isso eu também descobri no livro), ao fazer um passeio por uma praça, encontrou uma desconsolada menininha que chorava copiosamente por ter perdido sua boneca.

Por algum motivo obscuro, Kafka se aproximou da menina e, para consolá-la, inventou uma história de que a sua boneca não tinha se perdido e sim "tinha ido viajar" e ele, o "senhor carteiro de bonecas" tinha recebido uma carta da própria endereçada à menina e a traria no dia seguinte para que ela pudesse saber o que se passara. O que é uma mente imaginativa, não é mesmo, minha gente?

Pois por três luminosas semanas, Kafka escreveu cartas para consolar sua pequena nova amiga. Tais fatos foram contados por Dora Dymant, sua mulher na época. Além disso, durante muito tempo, Klaus Wagenbach, um estudioso do escritor, procurou infatigavelmente por pistas e pelo paradeiro da menina e das cartas. Em vão, infelizmente.

Mas as notícias correm, o mundo dá voltas e encontra pessoas que sonham. Então, um belo dia, um distinto escritor denominado Jordi Sierra i Fabra - entusiasmado com uma reportagem saída no jornal El País denominado La muñeca viajera da autoria de César Aira - lançou mãos a obra e escreveu esse livrinho "de ficção" sobre essa insólita passagem da vida de Franz Kafka.

Talvez a gente tenha crescido e, depois de tantas desilusões, não se lembre mais de como era ser criança. Talvez nossa incrédula cabeça de adulto possa regatear e queira achar, com sua lógica e anos de treinamento para sermos pessoas que agem desse ou daquele jeito, que "ah, é só um objeto inanimado e não tem grande importância pois daqui a pouco ela se esquece." E, por essa razão, talvez não sejamos capazes de reencontrar a criança que fomos e nos lembrar de que as crianças, nesses momentos, sofrem uma tristeza verdadeira, sem máscaras e sua dor não pode ser diminuída e é legítima. Gosto de pensar que, talvez, Franz Kafka tenha comungado da tristeza infinita da menina naquele momento...

Se os fatos ocorreram mesmo assim, se Kafka realmente tinha apenas aqueles bons sentimentos que Jordi apresenta no livro, se o final da história foi como ele conta... bom, acho pouco provável. Também achei a linguagem que ele usa para as cartas complexa demais para ser compreendida por uma menininha. De todo modo, a narrativa é envolvente e, embora eu desejasse dormir pois já era bem tarde, não consegui até chegar ao epílogo =). De modo que, sim, é um livro que vale a pena ser lido! Além de ser uma ótima inspiração e fonte de pesquisa para os projetos do mundomiki!

SERVIÇO
título Kafka e a boneca viajante
autor Jordi Sierra i Fabra com ilustrações de Pep Montserrat
editora Martins Editora Livraria Ltda.
páginas 127 páginas
título original Kafka e la muñeca viajera
tradução de Rubia Prates Goldoni
preço médio R$ 25,00

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Este post tem a intenção de disseminar o trabalho de Jordi Sierra i Fabra, Pep Montserrat assim como da Martins Editora Livraria. Todos os direitos são reservados aos seus respectivos proprietários.

sexta-feira, março 07, 2008

Ferdydurke - Witold Grombowicz

Um (bom) livro sempre nos leva a outros livros. Isso é um fato. Após ler o que o Milan Kundera escreveu sobre literatura, fui ler a Ana Karenina de Tolstoy e, agora, Ferdydurke, de Witold Gombrowicz, até então, um ilustre desconhecido para mim. Grombrowicz nasceu na Polônia em 1904, estudou direito e depois de se formar começou a escrever. Pouco antes da segunda guerra, ele foi convidado a participar de uma viagem transatlântica até a América do sul e quando chegou na Argentina, a Polônia havia sido invadida pelos nazistas e depois pelos soviéticos, esses acontecimentos fizeram com que ele permanecesse em Buenos Aires, onde viveu em grande penúria por duas décadas antes de retornar para a Europa. Ferdydurke é sua obra mais famosa e gira mais em torno de um tema do que propriamente conta uma história. O livro fala sobre um autor de trinta anos que passa a ser tratado como um garoto de dezessete anos, ele é visto como alguém que não pode ser levado a sério e submetido à tirania das instituições sociais: escola, professores, colegas, parentes.
As pessoas com as quais o rapaz cruza são representantes de valores que ele ridiculariza (comunismo, aristocracia, burguesia, etc). Gombrowicz escreve com absoluta liberdade e ironia. Gosto muito dos trechos reflexivos do protagonista, como este, logo no começo do livro:

“Eu tinha acabado de cruzar o inevitável Rubicão dos trinta há pouco tempo, eu tinha ultrapassado aquele marco e, de acordo com minha certidão de nascimento e por onde quer que examinasse, eu era um ser humano maduro. E, no entanto, não o era – o que eu era? Um jogador de bridge de trinta anos? Alguém que por acaso estava trabalhando, ocupando-se com as trivialidades da vida, cumprindo prazos? Qual era meu status? Freqüentava bares e cafés onde trocava algumas palavras, ocasionalmente até idéias, com as pessoas com as quais cruzava, mas meu status não era nada claro e eu mesmo não sabia se era um homem maduro ou um jovem imaturo. Naquele momento decisivo da minha vida, eu não era nem um nem outro – Eu não era nada – e meus contemporâneos, já casados e firmados, senão sobre suas opiniões sobre a vida, ao menos em várias agências governamentais, tratavam-me com uma desconfiança compreensível. Minhas tias, aqueles inúmeros um-quarto-de-mãe, apregoavam, remendavam, embora me amassem muito, e insistiam para que eu me estabelecesse e me tornasse alguém, um advogado, um servidor público – elas pareciam muito aborrecidas com minha indecisão e, sem saber o que fazer comigo, elas não sabiam como falar comigo, então, apenas tagarelavam:
‘Joey’, diziam entre uma tagarelice e outra, ‘é tempo, meu querido. O que as pessoas irão dizer? Se você não quer ser um doutor, ao menos seja um mulherengo, ou alguém que gosta de cavalos, seja algo... seja algo definido...’”

(Vocês também não tiveram/têm “tias” assim? Eu tenho várias, mas elas estão na minha consciência e não consigo me livrar delas!)

sábado, março 01, 2008

Botchan - Natsume Soseki

Natsume Soseki é um autor japonês de que gosto bastante. Fazia algum tempo que não o lia. Estou retornando a alguns velhos conhecidos, como Kawabata e Saramago e tem sido prazeroso.
Botchan é um dos primeiros livros de Soseki e conta a história bem humorada de um rapaz que se forma em física em uma faculdade de Tóquio e é contratado para dar aulas em uma província bem distante, no sul do arquipélago. Ele tem um temperamento forte e impulsivo que lhe rende muitas reprimendas na infância e que, adulto, torna-se o estopim de conflitos com os outros professores. O rapaz é do gênero “grosseirão com bom coração” e passa por várias vexações por causa de sua falta de tato, mas ele não parece se incomodar com as convenções sociais e fica sempre chocado com a insinceridade, a mentira e a afetação de seus colegas e das pessoas que encontra no vilarejo.
"Botchan" é uma palavra japonesa difícil de traduzir, é uma forma de chamar os garotos quando eles são pequenos que é, ao mesmo tempo, carinhosa e revela uma posição subordinada da pessoa que a usa, como Kiyo, a empregada da família do personagem em questão. Seria parecido com a forma como os escravos chamavam os filhos de seus senhores: “sinhozinho” (lembrem-se de que se trata de uma aproximação forçada, não exata!).
O livro é bastante popular no Japão e deve ser muito mais interessante e divertido em japonês, o tradutor mesmo escreve que é difícil encontrar equivalentes em inglês para todos os trocadilhos dos diálogos.
No trecho abaixo, o rapaz vai pescar com dois outros professores para os quais ele deu os nada lisonjeiros apelidos de “Camisa Vermelha” e “Palhaço”:

“O barqueiro remava em direção ao mar com batidas lentas e calmas, mas quando olhei para trás, descobri que já estávamos tão longe que a praia parecia bem pequena na distância. O pagode do templo Kohakuji afunilava-se como uma agulha acima das árvores e, do outro lado, a ilha de Aojima flutuava sobre a água. Ninguém vivia naquela ilha, olhando de mais perto, eu descobri a razão. Ela era apenas um aglomerado de rochas e pinheiros. Camisa Vermelha observou como a paisagem era delicada e Yoshikawa, o Palhaço, concordou. Eu não sabia se ela era delicada ou não, mas certamente dava uma sensação agradável olhar para ela. Era bom estar ali naquela vasta expansão de água, sentindo a brisa do mar. Eu estava morrendo de fome.
'Olhe para aquele pinheiro', Camisa Vermelha disse para Yoshikawa. 'O tronco é perfeitamente reto e a copa se espalha como um guarda-chuva. Ela deveria ter sido pintada por Turner'.
O Palhaço respondeu que ela 'tinha saído de um Turner', e que a curva era perfeita. Eu não tinha qualquer idéia do que 'Turner' significava, mas achando que poderia viver muito bem sem aquele conhecimento, fiquei quieto.
O barco deu uma volta do lado direito da ilha. Não havia ondas. Era tão calmo, de fato, que era difícil dizer que você estava no mar. Eu estava tendo bons momentos, graças ao Camisa Vermelha. Se fosse possível, eu gostaria de desembarcar na ilha e ver como ela era, apontando para uma rocha, perguntei ao barqueiro se o barco não poderia ancorar ali. Camisa Vermelha disse que aquilo poderia ser feito, mas que a pescaria não seria muito boa tão próximo da ilha. Então Yoshikawa se dirigiu a Camisa Vermelha e veio com a desnecessária sugestão de chamar o lugar de Ilha de Turner. Camisa Vermelha achou a idéia boa e disse que era como iríamos chamá-la a partir daquele momento. Esperei não ter sido incluído naquele 'nós'. Ilha de Aojima estava perfeito para mim.
'Imagine a Madonna de Rafael em pé sobre aquela rocha', disse Yoshikawa. 'Daria uma pintura maravilhosa. Você não concorda?'
'Não vamos falar sobre Madonnas', respondeu Camisa Vermelha, e deu uma risadinha desconcertantemente efeminada. Yoshikawa, lançando um olhar em minha direção, disse que estava tudo bem, pois ninguém estava ouvindo. E voltou-se para o outro lado de propósito com um sorrisinho afetado. Aquilo fez com que me sentisse desconfortável. Madonna ou beladona, dava tudo na mesma para mim. Ele poderia colocar o que quisesse sobre as rochas. Mas dizer coisas que outras pessoas não entendiam e, além disso, não se importar que elas ouvissem porque elas não as compreendiam, era grosseiro. Apesar de seu comportamento, Yoshikawa ainda tinha coragem de dizer que era de Tóquio. Madonna provavelmente era o apelido da geisha preferida de Camisa Vermelha. Bem, se ele queria colocar uma geisha debaixo de um pinheiro em uma ilha desabitada, ele que o fizesse. E o Palhaço poderia pintá-la a óleo e mostrar o quadro em uma exposição.”

domingo, fevereiro 24, 2008

Entrevista de Haruki Murakami na Der Spiegel

Estava folheando a Der Spiegel da semana passada quando encontrei uma entrevista com o escritor Haruki Murakami, é a primeira entrevista dele que leio. A revista o entrevistou porque a tradução para o alemão de seu último livro, “Sobre o que falo, quando falo sobre correr”, será lançada amanhã na Alemanha.
Quando passei na Amazon japonesa no ano passado, li alguns comentários (fazendo uso de meu japonês imperfeito) sobre o livro e a maioria das pessoas estava surpresa em ler algo mais pessoal desse autor bastante arredio quando se trata de sua intimidade.
Na entrevista, Murakami fala sobre o papel que correr possui em sua vida de escritor. Sua ênfase na importância do físico para a criação artística lembrou-me de que Coetzee, o Nobel sul-africano, também é adepto do “corpo são, mente sã” e gosta de pedalar por vários quilômetros.
A tradução americana do livro será lançada em 29 de julho.

Traduzi alguns trechos da entrevista fazendo uso do meu alemão que não é exatamente a quinta-essência da língua de Goethe.

Der Spiegel (18.02. 08)

O escritor e esportista amador japonês Haruki Murakami, 59, fala sobre a solidão da corrida de longa distância, a tortura dos treinos diários e o reconhecimento de que sua carreira de escritor começou depois que ele correu pela primeira vez.

Spiegel: Sr. Murakami, o que é mais fatigante: escrever um romance ou correr uma maratona?
Murakami: Escrever é prazeroso, ao menos quase sempre. Eu escrevo por quatro horas todos os dias. Depois eu corro. De regra, 10 km. É bom fazer isso. Mas percorrer 42,195 km é duro, no entanto é uma dificuldade, uma agonia inevitável, a qual eu me entrego conscientemente. Para mim, este é o aspecto mais importante de correr uma maratona.
Spiegel: O que é mais belo: terminar um livro ou chegar ao fim de uma maratona?
Murakami: Colocar um ponto final em uma história é como o nascimento de um filho. Um autor mais feliz talvez possa escrever doze romances, eu não sei quantos livros ainda tenho em mim. Quatro? Cinco? Correndo eu não sinto qualquer limite. Publico um romance a cada quatro anos, mas todos os anos eu faço uma corrida de 10 km, uma meia maratona e uma maratona. Até agora completei 27 maratonas, a última em janeiro, e as de número 28, 29 e 30 naturalmente irão se seguir.

Spiegel: Você cresceu como filho único. Escrever é um trabalho solitário e você corre sempre sozinho. Há uma relação?
Murakami: Com certeza. Gosto de ficar sozinho. Ao contrário de minha esposa, não gosto de sociedade. Estou casado há 37 anos e é sempre uma batalha. No meu emprego anterior frequentemente eu trabalhava até o amanhecer, agora eu vou para a cama entre nove e dez horas.
Spiegel: Antes de tornar-se um autor, você tinha um bar de jazz em Tóquio. Como foi essa mudança radical?
Murakami: Eu ficava no bar, era meu trabalho manter conversas. Fiz isso por sete anos, mas não sou um homem de muitas palavras. Eu jurei que quando terminasse, conversaria apenas com as pessoas com as quais realmente tinha vontade.

Spiegel: Você é um escritor melhor porque corre?
Murakami: Certamente. Quanto mais meus músculos se fortalecem, mais lúcido torna-se meu espírito. Estou convencido de que os artistas que levam uma vida pouco saudável exaurem-se mais rápido. Jimi Hendrix, Jim Morrison, Janis Joplin foram heróis de minha juventude – eles morreram jovens, embora não o merecessem. Apenas gênios precoces como Mozart ou Puschkin merecem mortes precoces. Jimi Hendrix era bom, mas não muito inteligente, pois usava drogas. Trabalhos artísticos não são saudáveis, para compensar, os artistas devem viver de forma saudável.
Spiegel: Você pode esclarecer isso?
Murakami: Quando um escritor desenvolve uma história, ele confronta um veneno em seu interior. Quando você não possui esse veneno, sua história não tem inspiração. É como o Fugu, o baiacu é muito saboroso, maravilhoso, mas as ovas, o fígado e os intestinos podem ser letais. Minhas histórias encontram-se em um lugar escuro, perigoso, da minha consciência. Sinto o veneno em meu espírito, mas posso tolerar uma dose alta, porque tenho um corpo forte. Quando você é jovem, possui mais força para vencer o veneno sem treino. Aos 40 anos, a força diminui, você não supera o veneno se não vive de forma saudável.
Spiegel: J. D. Salinger tinha 32 anos quando seu único romance apareceu, “O apanhador no campo de centeio”. Ele estava muito fraco para seu veneno?
Murakami: Eu traduzi o livro para o japonês. É muito bom, mas incompleto. A história torna-se cada vez mais sombria, e o protagonista não encontra o caminho de volta do mundo sombrio. Acho que o próprio Salinger nunca o encontrou. Se ele teria se salvado pelo esporte? Não sei.

Spiegel: Você se depara com idéias para suas histórias enquanto corre?
Murakami: Não, não sou o tipo de autor que encontra a fonte de uma história de forma lúdica. Eu preciso cavar bem fundo para atingir o lugar sombrio em minha alma, onde as histórias estão escondidas. Também para isso preciso estar fisicamente forte. Desde que comecei a correr, posso me concentrar por mais tempo, o que também é necessário para percorrer o caminho das trevas. No trajeto, você encontra tudo: as imagens, os personagens, as metáforas. Se você estiver fisicamente fraco, faltará a força para agarrá-los e transportá-los para a superfície de sua consciência. Assim é, também, na corrida. Você precisa cruzar a reta final, custe o que custar.

(Zut! Depois de traduzir esses trechos eu descobri a entrevista inteira traduzida para o inglês na Spiegel International! O bom foi ver que a minha versão está bem próxima.).

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Tender is the night - F. Scott Fitzgerald

Mais uma primeira vez na minha vida (engana-se quem pensa que as primeiras vezes são raras!), primeira vez que leio Francis Scott Fitzgerald.
Tender is the night, Suave é a noite, provavelmente um dos títulos de livro mais bonitos que conheço (inspirado em Ode to a Nightingale, um poema de John Keats), lembro que meu orientador, na época em que ele ainda não sabia que seria meu orientador, costumava encaixar o nome do livro no meio de sua peroração assim do nada, apenas dizia algo como “... pensem no caso de um livro como Tender is the night...” e continuava sua aula sobre Descartes. (Eram aulas de filosofia, talvez eu estivesse sonolenta demais naquele período da manhã para prestar atenção no encadeamento das idéias...)
A história, que se passa na primeira metade do século passado em locais como a Riviera Francesa, Paris e nos alpes suiços, é sobre Dick, um psiquiatra que se apaixona e casa com Nicole, uma de suas pacientes, filha de uma abonada família americana, e dos conflitos de seu relacionamento. É sobre como as paixões nascem e se consomem, como as expectativas transformam-se em decepção, enfim, sobre a demasiadamente humana existência. (E é, também, um livro um pouco autobiográfico, pois a esposa de Fitzgerald, Zelda, foi uma paciente de clínicas psiquiátricas enquanto ele teve sérios problemas com o álcool.)
O livro é muito bem escrito, enquanto lia, não conseguia deixar de pensar nos diálogos de filmes americanos antigos, quando os roteiristas eram também grandes escritores, e via as cenas em minha mente com direito a seus momentos dramáticos, seus galãs e suas divas.
Fitzgerald é imbatível quando disseca os relacionamentos, seus movimentos menos explícitos, traduzo um trecho (espero que não muito mal):

“Quando ele se sentou na beira da cama, sentiu o quarto, a casa e a noite vazios. No quarto ao lado, Nicole murmurou algo desolada e ele lamentou qualquer que fosse o tipo de solidão que ela sentia em seu sono. Para ele, o tempo permanecia imóvel e então, após alguns anos, aceleravam-se precipitadamente como o rápido rebobinar de um filme, mas para Nicole, os anos esvaíam-se pelo relógio, calendário e aniversário, somados à agonia de sua beleza perecível.
Mesmo o último ano e meio em Zugersee parecia tempo perdido para ela, as estações marcadas apenas pelos trabalhadores na estrada que se tornavam rosados em maio, marrons em julho, negros em setembro, brancos outra vez na primavera. Ela emergiu de sua primeira enfermidade cheia de novas esperanças, desejando muito, porém, privada de qualquer subsistência além de Dick, criando filhos que apenas podia fingir amar gentilmente, órfãos orientados. As pessoas de que gostava, a maioria rebeldes, perturbavam-na e eram-lhe nocivas – ela procurava nelas a vitalidade que as tornava independentes ou criativas ou rudes, procurava em vão – pois seus segredos estavam profundamente enterrados em conflitos de infância que elas tinham esquecido. Elas estavam mais interessadas na harmonia e charme exteriores de Nicole, a outra face de sua enfermidade. Ela levava uma vida solitária possuindo Dick que não desejava ser possuído.
Muitas vezes ele tentou sem sucesso relaxar sua influência sobre ela. Eles tinham muitos bons momentos juntos, agradáveis conversas entre as paixões das noites insones, mas quando ele se afastava e mergulhava em si mesmo, ele a deixava agarrada ao Vazio que contemplava em suas mãos, ao qual dava vários nomes, mas que ela sabia ser apenas a esperança de que ele logo retornaria.”


quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Melhores poemas - Mario Quintana

Sabia que quando pegasse uma antologia de poemas escritos por Mario Quintana, mesmo uma fina como esta que comprei em uma tarde quente de sexta-feira e li de um só golpe, eu seria conquistada, pois já tinha lido alguns poemas dele aqui e ali e a simpatia foi imediata. Agora minha trindade de poetas nacionais está completa: Drummond, Bandeira e Quintana. Todos escrevem com a facilidade e a simplicidade de quem repete gestos cotidianos, sem qualquer afetação e, assim mesmo, conseguem ser profundos, fazem carícias na alma da gente.
Se o Natal não tivesse passado, pediria para o O. me dar a antologia que compreende quinze de seus livros publicada pela Nova Aguilar, mas agora terei que economizar ou esperar até o dia dos namorados/ aniversário de casamento, ambos em junho (*suspiro!*). Aliás, alguém sabe se algum livro ficou de fora da edição da Nova Aguilar?

***

O que nos faz simpatizar com um escritor ou poeta? Acho que Quintana diz bem na carta que dirige a um poeta anônimo:

“Agora, que poetas deve ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles. São os únicos que te convêm, pois cada um só gosta de quem se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome nacional, e que no entanto me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família”.

(Não que eu seja uma poeta ou me ache parecida com os poetas de que gosto, seria presunção demais da minha parte!)

***

Mais um pouquinho, só para fazer vontade:

A carta

Hoje encontrei dentro de um livro uma velha carta amarelecida,
Rasguei-a sem procurar ao menos saber de quem seria...
Eu tenho um medo
Horrível
A essas marés montantes do passado,
Com suas quilhas afundadas, com
Meus sucessivos cadáveres amarrados aos mastros e gáveas...
Ai de mim,
Ai de ti, ó velho mar profundo,
Eu venho sempre à tona de todos os naufrágios.


***

Recordo ainda... e nada me importa...
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta...

Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança...

Estrada afora após segui... Mas, ai,
Embora idade e senso eu aparente,
Não vos iluda o velho que aqui vai.

Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino... acreditai...
Que envelheceu, um dia, de repente!...

sábado, fevereiro 09, 2008

Viagem a Portugal - José Saramago

Descobri José Saramago na época em que prestava o vestibular porque o Memorial do convento estava na lista de leitura obrigatória para as provas. Foi uma descoberta feliz, o livro é muito bonito, Saramago sabe unir reflexão com poesia. Depois do Memorial, passei para O evangelho segundo Jesus Cristo, O ano da morte de Ricardo Reis e Ensaio sobre a cegueira, neste último, há uma imagem que desperta um contentamento e assombro enormes em mim todas as vezes que me lembro dela: a cena do banho das três mulheres na varanda do apartamento. Três cegas e a mulher do médico, única que vê, vão para o lado de fora e tomam um banho de chuva depois de passarem pelas situações mais desesperadoras, elas riem e sentem a água sobre o corpo. Essa imagem é de uma pureza encantadora! Li ainda outros livros de Saramago, mas são os que mencionei os meus preferidos.
Fazia tempo que não voltava ao autor e escolhi justamente um livro de viagens. Sempre gostei de livros de viagens, mesmo daqueles guias de bancas de jornais. Minha adolescência foi povoada de projetos de viagens nunca levados adiante na realidade, por falta de dinheiro (o que não mudou muito, infelizmente), mas detalhadíssimos na imaginação.
Viagem a Portugal é um deleite para quem gosta de história e arte. Saramago começa sua jornada lá no norte do país, na fronteira com a Espanha e vem descendo em direção ao sul. Ele é um guia cheio de erudição, entra nas igrejas e museus, passeia por ruínas e castelos, fala sobre estilos arquitetônicos, conhece azulejistas, pintores, escultores, a história dos lugares. Ele escreve dando suas opiniões, contando incidentes, fazendo amizades pelo caminho. É uma pena que o livro não traga fotos! Se um dia for a Portugal, e sei que irei (leram isso meus queridos leitores portugueses?), levarei o livro comigo para que Saramago aponte para as coisas e faça com que eu preste atenção aos detalhes que, caso contrário, passariam despercebidos.

Este é último parágrafo do livro:

“A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse: ‘Não há mais que ver’, sabia que não era assim. O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.”


quinta-feira, janeiro 31, 2008

Ni d'Éve ni d'Adam - Amélie Nothomb

Amélie Nothomb (a garota da capa acima) é uma escritora belga que nasceu no Japão, onde viveu até os cinco anos. Ela morou em vários outros países devido ao trabalho de seu pai, um diplomata da Bélgica. Pelo o que li, ela é uma escritora bastante prolífica, um livro publicado por ano para cada dois deixados na gaveta. Descobri seu trabalho assistindo a um filme (isso está ficando comum...), Stupeur e Tremblements (Estupor e Tremores), baseado em seu romance autobiográfico com o mesmo nome de 2001. Aos vinte e um anos, ela retorna ao Japão para fazer um curso de japonês comercial em Tóquio e, no ano seguinte, ela é contratada para trabalhar em uma grande empresa japonesa. Nesse livro, ela narra sua vida corporativa japonesa e as desventuras que precisa enfrentar ao cair em desgraça junto da mulher a quem está subordinada. Ela é submetida a humilhações constantes, é proibida de falar japonês, apesar de conhecer a língua, e termina limpando banheiros. Ao final de um ano terrível, ela pede demissão e volta para a Bélgica. Esta é a história do filme que, apesar de não ser classificado como uma comédia, tem momentos bem divertidos.
Ni d’Éve, ni d’Adam (
Nem de Eva, nem de Adão) é o primeiro livro dela que leio, ele saiu no ano passado e me interessou devido ao tema, ela retoma suas experiências no Japão por um outro ângulo e escreve que “se Estupor e Tremores dá a impressão de que, no Japão, na idade adulta, ela foi a mais desastrada das empregadas, Nem de Eva, nem de Adão revelará que, na mesma época e no mesmo lugar, ela também foi a noiva de um habitante de Tóquio muito singular”. E é verdade, ela conta seu relacionamento com Rinri, que ela conhece em seu primeiro ano no Japão, um rapaz para quem ela dá aulas de francês e com o qual termina se envolvendo.

O livro é muito bom, de leitura rápida e agradável. Amélie escreve com agilidade e tem um humor todo seu.
Traduzi o começo do primeiro capítulo, o primeiro encontro de Rinri e Amélie, ele é divertido:

“O meio mais eficaz para aprender japonês me pareceu ser ensinar francês. No supermercado, deixei um pequeno anúncio: ‘Aulas particulares de francês, preço atraente.’
O telefone tocou na mesma noite. O encontro foi marcado para o dia seguinte em um café de Omotesando. Não entendi seu nome, ele também não entendeu o meu. Ao desligar, dei-me conta de que não sabia como reconhecê-lo, ele também não. E como não tive a presença de espírito de pedir seu número, aquilo não se arranjaria . ‘Talvez ele me ligue outra vez por esse motivo’, pensei.
Ele não ligou. A voz me pareceu jovem. Aquilo não me ajudaria muito. A juventude não estava em falta em Tóquio em 1989. Muito menos naquele café de Omotesando, em 26 de janeiro, por volta das quinze horas.
Eu não era a única estrangeira, longe disso. Entretanto, ele marchou diretamente na minha direção sem hesitar.
- Você é a professora de francês?
- Como você sabia?
Ele levantou os ombros. Muito rígido, ele se sentou e se calou. Compreendi que eu era a professora e que cabia a mim ocupar-me dele. Fiz perguntas e soube que ele tinha vinte anos, que se chamava Rinri e que estudava francês na universidade. Ele soube que eu tinha vinte e um anos, que me chamava Amélie e que estudava japonês. Ele não entendeu minha nacionalidade. Eu já estava acostumada com aquilo.
- A partir de agora, não temos mais o direito de falar em inglês, disse.
Conversava em francês para conhecer seu nível: ele se revelou consternador. O mais grave era a sua pronúncia, se eu não soubesse que Rinri falava comigo em francês, teria acreditado que se tratava de um iniciante muito ruim de chinês. Seu vocabulário escasseava, sua sintaxe reproduzia mal aquela do inglês que, no entanto, parecia ser a sua absurda referência. Ora, ele estava no terceiro ano de estudos de francês na universidade! Tive a confirmação da derrota absoluta do ensino de línguas no Japão. Em tal grau, aquilo não podia ser chamado de insularidade.
O jovem deve ter se dado conta da situação, pois ele não demorou a se desculpar, depois se calou. Eu não consegui aceitar aquela derrota e tentava fazer com que ele voltasse a falar. Em vão. Ele mantinha a boca fechada como se quisesse esconder dentes estragados. Estávamos em um impasse.
Comecei a falar em japonês. Eu não praticava desde os cinco anos de idade e os seis dias que tinha passado no país do sol nascente, depois de dezesseis anos de ausência, não tinham sido suficientes, longe disso, para reativar minhas lembranças infantis daquela língua. Eu produzi um galimatias pueril sem pé nem cabeça. Falava sobre agentes de polícia, cães e cerejeiras em flor.
O garoto me escutou com assombro e terminou por cair na gargalhada. Ele me perguntou se tinha sido uma criança de cinco anos que me havia ensinado japonês.
- Sim, respondi. A criança, sou eu.
E contei-lhe meu trajeto. Eu o narrei lentamente em francês, graças a uma emoção particular, senti que ele me compreendia.
Eu o tinha descomplexado.
Em um francês pior do que horrível, ele me disse que conhecia a região em que eu tinha nascido e onde havia passado meus cinco primeiro anos: Kansai.
Ele era de Tóquio, onde seu pai dirigia uma grande escola de joalheria. Ele se calou, esgotado, e bebeu seu café de um só gole.”


sábado, janeiro 26, 2008

Chroniques d'Asakusa - Yasunari Kawabata

Eu não visitei Asakusa (um distrito de Tóquio) e sempre lamentei esse fato. Tive apenas um dia para passear na cidade e decidi gastá-lo indo até outro bairro famoso no universo literário japonês, Ueno. Fui até lá na parte da tarde, queria conhecer o zoológico mais antigo do Japão e ver o panda que é uma de suas grandes atrações, mas o zoo estava fechado. Ele fica no meio de um parque e, ao seu redor, há vários museus, inclusive o Museu Nacional de Tóquio, não perdi tempo, passei a tarde vendo os quadros de uma exposição de pintores flamengos em um pequeno museu na frente da estação e depois atravessei a rua e fui ver os artefatos egipícios que estavam em exposição no Museu Nacional naquela época. Andei, andei, peguei o trem e voltei para o hotel e, no dia seguinte, dirigi-me novamente para Ueno de manhã cedo. Estava decidida a ver o panda. E vi. E era algo melancólico vê-lo através do vidro espesso comendo bambu sentado sobre o chão revestido de piso cerâmico.
Dei uma volta pelo zoo, tomei uma fanta verde fluorescente de sabor melão (de que não gostei), saí do zoológico, desci uma rua ao lado da estação e encontrei um sebo onde comprei um livro de gravuras em francês para presentear O. e um livro com fotos do acervo do Museu Nacional, voltei para o hotel e dei adeus a Tóquio.
Lamento não ter ido até Asakusa, ao menos para ver a grande lanterna do Kaminarimon. Depois de ler o livro de Kawabata, lamentei ainda mais não ter ido lá conferir como é o bairro nos dias de hoje. No período retratado por ele, os anos trinta, Asakusa é o bairro das prostitutas, dos vagabundos, malandros e mendigos. Era o inferninho de Tóquio, um lugar a ser evitado pelas pessoas de boa reputação, hoje as coisas mudaram muito e Asakusa tornou-se uma das atrações turísticas mais tradicionais da cidade.
Este livro de Kawabata não é um romance, mas uma coleção de notas e quadros que caracterizam Asakusa no período. Não é um de meus preferidos (que são O país das Neves e O som da montanha), mas vale por nos fazer saborear um pouco da história do Japão, e há algumas imagens bonitas, como só Kawabata sabe escrever:

"Uma luz rosa refletia-se sobre o asfalto que brilhava como uma chapa de chumbo. Pontos vermelhos dispersos aqui e ali flutuavam ao acaso sobre a cidade. Ouvia-se o eco do bonde. Eram cinco horas da manhã. À luz irisada do sol, a urina da véspera desenhava longas faixas paralelas no asfalto. "

(Eu sei, urina na rua não é algo poético, mas tiro o meu chapéu para quem consegue usar essa imagem como o Kawabata.)

quarta-feira, janeiro 23, 2008

As mil e uma noites


Mil e uma noites passaram sem que notasse a chegada da alvorada.
Mil e uma vezes fui entretida pela bela vestida com véus e seda.
Sua voz conduziu-me às tribos dos desertos e tive a honra
de entrar nos palácios de sultões e emires.
Provei pratos exóticos, beijei virgens,
adormeci ao som dos alaúdes
nas tardes perfumadas de almíscar.
Fui conquistada pelo encanto do oriente,
conheci uma Bagdá onde não explodem bombas
e o povo celebra e goza a vida.

* As mil e uma noites em sua versão integral não é exatamente um livro de contos de fadas, está bem mais próximo do Satyricon do que dos contos da Carochinha.
(*E mil e uma noites não significam mil e uma histórias, várias delas são longas e estendem-se por várias noites).


sábado, janeiro 19, 2008

Josep M. Castellet

Em um período em que vivemos uma carência de mestres, pessoas que ouvimos com admiração, é sempre revigorante ler uma entrevista tão lúcida como esta publicada no La Vanguardia (em espanhol). Eu não conhecia Josep M. Castellet, um crítico literário espanhol, mas o que ele diz faz muito sentido. Obrigada, pela indicação, Manuel!