quinta-feira, setembro 06, 2007

Ignorância - Milan Kundera

Outro dia escrevi que li vários livros do Kundera e que não me lembrava dos enredos das histórias, era verdade, mas após ler Ignorância, acho que posso explicar um pouco melhor a razão de meus "brancos". As histórias do autor giram em torno de relacionamentos, identidade e sentimentos, são eles que ocupam o papel principal e , desta forma, torna-se difícil definir um "enredo" para seus romances. Agora, uma coisa tenho que admitir, Kundera escreve belamente. Neste livro, ele narra o retorno de Irena e de Josef à República Tcheca após vinte anos de exílio em outros países da Europa e mostra como as pessoas que os conheceram olham para os dois como se fossem uma espécie de desertores e procuram fazer de conta que os últimos vinte anos de suas vidas não existiram. Kundera também fala sobre como muito nos relacionamentos humanos é baseado em equívocos:

"Imagine os sentimentos de duas pessoas que se encontram novamente após muitos anos. No passado, elas ficaram algum tempo juntas e portanto acham que estão unidas pela mesma experiência, pelas mesmas recordações. Pelas mesmas recordações? É aí que os mal-entendidos começam: elas não possuem as mesmas recordações; cada uma retém duas ou três pequenas cenas do passado, mas cada uma possui as suas próprias recordações, elas não são parecidas, elas não se cruzam; elas não são comparáveis nem mesmo em termos de quantidade: uma pessoa lembra-se da outra mais do que esta se lembra dela; primeiro, porque a capacidade da memória varia entre os indivíduos (uma explicação que cada uma delas acharia ao menos aceitável), mas também (e isso é mais doloroso de se admitir) porque elas não possuem a mesma importância para cada uma delas. Quando Irena viu Josef no aeroporto, ela lembrava-se de cada detalhe de sua aventura do passado; Josef não se lembrava de nada. Desde o primeiro instante, seu encontro estava baseado em uma injusta e revoltante desigualdade."


quarta-feira, agosto 29, 2007

A primeira Lady Chatterley - D. H. Lawrence

Meu primeiro encontro com D.H. Lawrence. O romance O amante de Lady Chatterley é famoso pelas suas cenas de sexo e pela linguagem considerada obscena, mas é preciso notar que há três versões muito diferentes da história e a última, revisada e levada à publicação pelo autor, é aquela responsável por essa fama do romance. Eu não conhecia esses detalhes e peguei a versão que encontrei em inglês, pois prefiro ler na língua original quando possível.
A Primeira Lady Chatterley conta a história de Connie, casada com Clifford Chatterley, um aristocrata que perdeu o movimento das pernas durante a guerra, e seu romance com um dos empregados da propriedade, Oliver Parkin. Ela procura este último com a intenção de satisfazer as necessidades sexuais que Clifford não é mais capaz de atender, mas apesar de tudo começar com um desejo físico, aos poucos Connie começa a ver um outro lado de Oliver que, de certa forma, desarma-a. O relacionamento envolve muitas dificuldades, ele faz parte da classe trabalhadora, ela é uma lady, e isso gera conflitos entre os dois amantes. Mesmo a linguagem de Oliver é algo que o separa do mundo de Connie.
Li que Lawrence pretendia dar o título de Ternura para o livro, creio que seria um bom título, ao menos para esta versão do romance. A descrição do relacionamento entre Connie e Oliver e de seus conflitos é muito terna e vívida. Acho que não lerei a última versão, gostei demais desta aqui.

terça-feira, agosto 21, 2007

Um trecho de "Proust contra Saint-Beuve"

"Cada dia dou menos valor à inteligência. Cada dia eu me rendo mais conta de que é apenas em seu exterior que o escritor pode reencontrar algo de nossas impressões, quer dizer, atingir algo de si mesmo e a única matéria da arte. Aquilo que a inteligência nos fornece sob o nome de passado, não é o passado. Na realidade, como acontece com a alma dos mortos em certas lendas populares, cada hora de nossa vida, assim que morre, encarna-se e esconde-se em algum objeto material. Ela permanece aprisionada ali dentro, aprisionada para sempre, a menos que reencontremos tal objeto. Por meio dele, nós a reconhecemos, nós a chamamos e ela é libertada. O objeto no qual ela se esconde - ou a sensação, pois todo objeto em relação a nós é sensação - , pode jamais ser encontrado por nós. E assim, há horas de nossa vida que nunca mais ressuscitarão. Pois esse objeto é tão pequeno, tão perdido no mundo, que há poucas chances de que se encontre em nosso caminho!"

(Esse trecho explica bem o episódio da madeleine de Proust, não?)


quinta-feira, julho 26, 2007

After the quake - Haruki Murakami

Demorei um pouco para ler este livro do Murakami, temia que ele fosse meio baixo astral porque foi escrito depois do terremoto de Kobe em 1995, mas estava enganada. O terremoto é apenas mencionado vagamente em cada um dos seis contos que compõem a coletânea, alguém vê a notícia e descobrimos que o personagem morou ou conhece alguém que mora na região e o assunto meio que morre ali. Gostei bastante deles. Murakami trata da solidão e da dificuldade envolvida nos relacionamentos pessoais sempre de modo muito delicado.

Ufo em Kushiro, é sobre um rapaz que é deixado pela esposa e vai até Hokkaido levar um pacote para a irmã de um amigo e para se esquecer de sua situação.

Paisagem com Ferroplano, mostra o relacionamento de um pintor de meia idade que gosta de fazer fogueiras com a madeira que encontra na praia e uma garota que fugiu de casa quando era mais jovem.

Todos os filhos de Deus podem dançar, é sobre um rapaz que busca respostas sobre quem é seu pai.

Tailândia, um de meus preferidos, é sobre uma médica que vai até a Tailândia para uma conferência e estende sua estadia em um resort em um local isolado.

Super-sapo salva Tóquio, também é um barato, muito divertido e bonito. Um dia um cara que trabalha em um banco encontra um sapo gigante em seu apartamento que diz que ele precisa ajudá-lo a derrotar "Verme", um ser que vive no subsolo e ameaça destruir a cidade de Tóquio...

Torta de mel, conta a história de três amigos e de seu triângulo amoroso. Também muito terno.

Agora estou sem Murakamis para ler e tenho que esperar...

segunda-feira, julho 23, 2007

Elizabeth Costello - J. M. Coetzee

Li "Disgrace" (traduzido como "Desonra" no Brasil) antes do escritor sul-africano John Maxwell Coetzee ganhar o Nobel de literatura em 2003 e o achei ótimo, depois li O mestre de São Petesburgo, cujo personagem principal é Dostoievski e, ontem, terminei Elizabeth Costello. Respectivamente, um romance sobre a questão racial na África do Sul, um livro que traz um Dostoievski atormentado em busca de respostas sobre a morte de seu enteado e as cenas da vida de uma escritora já consagrada no final de sua carreira, Elizabeth Costello.

Gosto de Coetzee, ele mereceu o Nobel e um dia espero encontrá-lo em uma Flip da vida apenas para conferir se ele é parecido com seus personagens: um pouco cínico, um pouco cansado, alguém que responderia "Whatever" para qualquer questão que lhe fizessem como se tivessem lhe perguntado algo como "Would you like to have tea or coffee?".

Acho que em Elizabeth Costello ele deixa bem clara a forma como encara a vida de um escritor. A protagonista viaja de um lado para o outro para dar palestras sobre a literatura ou para falar sobre assuntos como a crueldade com os animais, mas apesar de aceitar os convites, ela não deixa de se exasperar em ter que conversar com pessoas com as quais não se importa quando preferiria estar descansando.

No último capítulo, uma alegoria sobre a morte parecida com alguns episódios das histórias de Kafka, Elizabeth está em uma cidade estranha e quer atravessar um portão para sair de lá, mas para isso, precisa apresentar-se diante de um júri e dizer no que acredita. Ela já está na segunda audiência e se desespera, pois sabe que sua busca por alguma paixão, por algo em que professar sua fé, parece estar condenada ao fracasso.

"When she was young, in a world now lost and gone, one came across people who still believed in art, or at least in the artist, who tried to follow in the footsteps of the great masters. No matter that God had failed, and Socialism: there was still Dostoevsky to guide one, or Rilke, or Van Gogh with the bandaged ear that stood for passion. Has she carried that childish faith into her late years, and beyond: faith in the artist and his truth?

Her first inclination would be to say no. Her books certainly evince no faith in art. Now that it is over and done with, that lifetime labour of writing, she is capable of casting a glance back over it that is cool enough, she believes, even cold enough, not to be deceived. Her books teach nothing, preach nothing; they merely spell out, as clearly as they can, how people lived in a certain time and place. More modestly put, they spell out how one person lived, one among billions: the person whom she, to herself calls she, and whom others call Elizabeth Costello. If, in the end, she believes in her books themselves more than she believes in that person, it is belief only in that sense that a carpenter believes in a sturdy table or a cooper in a stout barrel. Her books are, she believes, better put together than she is."

Oh,dear Emily!

Adoro a Emily Dickinson, gosto tanto de seus poemas:

I'm nobody! Who are you?
Are you - Nobody - Too?
Then there's a pair of us!
Don't tell! they'd advertise - you know!

How dreary - to be - Somebody!
How public - like a Frog -
To tell one's name - the livelong June -
to an admiring Bog!

Este também:

I've seen a Dying Eye
Run round and round a Room -
In search of Something - as it seemed -
Then Cloudier become -
And then - obscure with Fog -
And then - be soldered down
Without disclosing what it be
'Twere blessed to have seen -

domingo, julho 15, 2007

Como acabar de uma vez por todas com a cultura - Woody Allen

Descobri Woody Allen como escritor recentemente, quando li um dos artigos que ele escreveu para a revista New Yorker no qual mistura teorias filosóficas e dietas. Eu o achei extremamente divertido, um exemplo da típica ironia woodyalleniana e fiquei feliz ao encontrar uma coletânea com outros artigos em um livro bem velhinho, publicado pela primeira vez em 1974.

O. compra livros "curiosos", então tive que ler tudo em espanhol.

Em "Como acabar de uma vez por todas com a cultura" Allen satiriza tudo e todos, desde a psiquiatria, biografia, revoluções, filosofia até o cinema e a máfia. Achei alguns artigos melhores do que outros, acho que há algumas tiradas que fazem mais sentido se você é americano ou judeu, mas no geral, é uma leitura bem interessante e que flui rápido. Eis um trecho do artigo "Como acabar com as revoluções na América Latina", os revolucionários estão na selva e um deles escreve um diário da campanha:

"10 de julho: Hoje foi, em linhas gerais, um bom dia levando em consideração que os homens de Arroyo nos emboscaram e quase nos liquidaram. Em parte, a culpa foi minha, porque revelei nossa posição ao invocar a Santíssima Trindade aos berros quando uma tarântula subiu por minha perna. Durante alguns segundos, não consegui me livrar da tenaz da maldita aranha enquanto ela abria caminho nas secretas profundezas de minha roupa fazendo com que eu corresse como um louco até o rio e me jogasse nele, o que me pareceu que durou três quartos de hora. Pouco depois, os soldados de Arroyo abriram fogo sobre nós. Lutamos com valentia, embora a surpresa tenha criado uma leve desorganização e durante os primeiros dez minutos nossos homens tenham atirado uns nos outros. Mesmo Vargas se salvou por um fio da catástrofe quando uma granada aterrissou a seus pés. Ele ordenou que me jogasse sobre ela. Consciente de que somente ele era indispensável para nossa causa, eu o fiz. O destino quis que a granada não explodisse, e saí inteiro do incidente com apenas um ligeiro tremor e a incapacidade de adormecer a menos que alguém segure uma de minhas mãos."


quarta-feira, julho 11, 2007

Nova lista de livros para ler

Duas vezes por ano, eu tenho que dar uma geral na edícula que fica do lado da casa. Lá estão parte de nossos livros e alguma "bagunça" (atualmente parece haver mais bagunça do que livros), a tarefa consiste em limpar as prateleiras das estantes e colocar bolinhas de naftalina em cada uma delas, atrás dos livros, passei metade do dia fazendo isso, a naftalina acabou e preciso comprar mais, falta bastante para terminar e agora o trabalho vai mais devagar, porque a naftalina impregna tudo e não posso ficar lá dentro por muito tempo. (Não quero ser encontrada de costas junto com as baratas!) Sempre que faço a limpeza encontro algo que sinto vontade de ler, estes entraram na fila:

After the quake do Murakami, contos sobre o terremoto de Kobe.
Um livro do Woody Allen em espanhol, língua em que não gosto de ler, mas O. às vezes compra coisas do arco-da-velha, como alguns livros do Kafka em italiano. Mamma mia!
O processo do Kafka em alemão (quero ver se meu curso está adiantando algo)
Precision and Soul, um livro de ensaios do Musil.

quinta-feira, junho 28, 2007

Gargantua e Pantagruel

Estou lendo um volume das obras completas de Rabelais que O. comprou por um bom preço em um sebo virtual fora do país. Sempre tive curiosidade em saber quem eram Gargantua e Pantagruel e agora já sei! São dois gigantes memoráveis e suas histórias são pontilhadas por grandes comilanças, bebedeiras homéricas e episódios escatológicos. Por exemplo, Gargantua, filho de Grandgousier e pai de Pantagruel, nasce logo após sua mãe ter um problema intestinal por ter comido muitas tripas, sem falar que Gargantua afoga uma tropa de inimigos após aliviar sua bexiga...

As histórias são divertidas e deveriam ser ainda mais interessantes na época em que foram escritas, pois contêm uma sátira impiedosa das instituições públicas e eclesiásticas da época (séc. XVI). Estou lendo em francês, mas como Rabelais inventa muitas palavras e brinca com umas tantas outras, acho que não tiro todo o proveito que poderia da leitura. Traduzir os cinco livros que constituem toda a história de Gargantua e Pantagruel não deve ser uma tarefa fácil, imagino que seja o equivalente a traduzir Grande Sertão: Veredas, do Guimarães Rosa para outra língua (o que já foi feito).

(Descobri que há uma tradução para o português aqui, mas não sei quem é seu tradutor. )

Achei divertidíssima a relação de livros que Rabelais diz existir na biblioteca de uma abadia, ele tira um tremendo sarro da produção literária e interesses intelectuais dos "doutos" de sua época, os meus títulos preferidos são:

"Como tirar profiterolles das indulgências"
"A quimera zumbindo no vazio é capaz de devorar as segundas intenções?"
"Contra aqueles que dizem que a mula do Papa só come nas suas horas"
"Os devaneios dos casos de consciência"
"O interesse do traseiro na cirurgia"
.
.
.
etc.


quinta-feira, junho 14, 2007

After Dark - Haruki Murakami

Este é o último livro traduzido para o inglês do Murakami. Infelizmente, ele durou pouco, eu o li em duas noites. O livro não chega a ser um romance, é quase uma coleção de crônicas sobre personagens que se cruzam em uma noite em Tóquio: uma garota que passa o tempo lendo em redes de fast food ou bares, um rapaz que toca trombone, uma prostituta chinesa espancada e seu agressor, a gerente de um love hotel e ex-pugilista, uma modelo que dorme. O narrador nos conduz às cenas como se dirigisse um filme, ouvimos conversas, nossos olhares são conduzidos para closes e detalhes alheios aos personagens. Há jazz, muito jazz, como trilha sonora. A sensação é a de que estamos diante de um misto de Short Cuts com um filme noir. A cidade também participa da história como um organismo vivo, mas indiferente aos acontecimentos e vidas de seus habitantes.
Murakami gosta de experimentar novas técnicas de narração, ele parece se divertir com isso. Como muitos outros de seus fãs, acho que o livro não apresenta o autor em sua melhor forma, mas é bom e Murakami continua sendo um de meus autores favoritos.


terça-feira, junho 05, 2007

Anna Karenina - Tolstoi

Terminei de ler Anna Karenina ontem. Uma obra magnífica! Nunca tinha lido nada de Tolstoi antes e fiquei de queixo caído com a maneira como ele consegue criar personagens e descrever seus estados de alma. A história não é apenas sobre o adultério de Anna, é um retrato da Rússia na época em que Tolstoi escreveu seu romance. Ao contrário de Dostoievsky, cujas obras geralmente tratam das classes trabalhadoras ou menos favorecidas da sociedade, Tolstoi escreve sobre sua própria classe, a aristocracia, sem deixar de criticá-la.
Anna é uma mulher apaixonada, ciumenta, que se casou por conveniência e que se apaixona perdidamente por Vonskri. Em nome de seu amor, ela deixa tudo para viver com seu amante. Por causa de seu caráter apaixonado e de seu medo de não ser mais amada por Vonskri, ela toma atitudes desesperadas que culminam em seu suicídio.
Apesar do título, o livro não trata apenas de de Anna e de seu relacionamento, mas também do amor entre Levine (alter ego do autor) e Kitty e de seu círculo familiar, bem como das contradições internas de cada um de seus personagens.
Ah, os clássicos são clássicos por alguma razão!


segunda-feira, maio 07, 2007

Em busca do tempo perdido - No caminho de Swan

Talvez alguns livros realmente devam ser lidos em determinadas épocas de nossas vidas, ao menos para mim, esse foi o caso com Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, obra que narra as memórias do autor desde sua infância, composta de sete volumes. Todo mundo falava tanto desse autor francês, sempre lia elogios à sua obra e, no entanto, quando peguei o primeiro volume, "No caminho de Swan", e o li, achei tão enfadonho! Parei no começo do segundo volume, "À sombra das raparigas em flor", e o esqueci por completo. Há alguns anos atrás, resolvi fazer um curso de literatura em uma escola de francês apenas para melhorar o vocabulário e manter contato com a língua, a obra a ser lida era "Sodoma e Gomorra", se não me engano, o quarto volume de Em Busca do Tempo Perdido. Daquela vez, fui conquistada por Proust e li todos os volumes, um atrás do outro! Ah, as descrições de Combray e Balbec, cidades nas quais o autor respectivamente passou sua infância e suas férias à beira-mar, são belíssimas! A riqueza de detalhes e composição dos personagens são invejáveis!

No caminho de Swan
, À Sombra das raparigas em flor e Sodoma e Gomorra são os volumes de que mais gosto, mas a obra toda é muito boa!

Terminei de reler o No caminho de Swan esta semana, este é finalzinho do livro:

"Os lugares que conhecemos pertencem apenas ao mundo do espaço no qual os situamos por uma questão de comodidade. Eles não passavam de uma fatia ínfima entre as impressões contíguas que formavam nossa vida então, a lembrança de uma certa imagem é apenas o pesar de um certo instante; e as casas, as ruas, as avenidas, são fugitivas, hélas, como os anos."

*Há traduções muito boas para o português feitas por Carlos Drummond de Andrade e Mário Quintana!


domingo, maio 06, 2007

Questionário literário

(Respondi este meme no Kafka, mas como ele é sobre livros...)

A querida Elvira da Tasca me convidou a responder este questionário sobre livros, como sou apaixonada pela literatura e gosto de memes, eis minhas respostas (em português, pois meu francês anda enferrujado...):

Os 4 livros de minha infância:

Os colegas de Lygia Bojunga Nunes, li este livro infantil com uma prima em uma viagem ao litoral norte de SP, antes de dormir, cada uma de nós lia um pedaço, como ela se cansou, li o final sozinha. Relido várias vezes.
Monteiro Lobato: Li todas as histórias do Sítio do Pica-pau Amarelo. É uma pena que as crianças prefiram assistir televisão hoje em dia...
Contos de Hans Christian Andersen: como a Elvira, eu também adorava os contos de Andersen, eles não são alegres, ao contrário, muitas vezes, são sombrios, mas muito interessantes. Minha história favorita era a "Rainha da Neve".
Estórias e lendas brasileiras contadas pelo Arrelia: uma coletânea de contos e lendas brasileiros divididos de acordo com suas regiões de origem narrados pelo palhaço Arrelia. Histórias sobre o Currupira, Boitatá, Mãe d'água, boto... Não encontrei referência para a coletânea :(


Os 4 escritores que eu lerei e relerei:

Emily Dickinson: Adoro seus poemas sensíveis e cheios de beleza.
Fernando Pessoa: sem comentários!
Marcel Proust: Estou relendo o primeiro volume de Em busca do tempo perdido, algumas de suas descrições de Balbec e de Combray são inesquecíveis...
Yasunari Kawabata: mais uma coincidência com as resposta da Elvira... Yasunari Kawabata é um autor japonês de escrita ímpar. Gosto de pensar que seus textos são compostos de pequenos haikais.

Os 4 autores que não comprarei ou tomarei mais emprestado:

Paulo Coelho: Oh! Ele um dos escritores que aparece constantemente neste item! rs Bem, ele serve para distrair, mas está na categoria de auto-ajuda, não de literatura... Só invejo sua capacidade de fazer dinheiro...
Sidney Sheldon: Hum.. Esta parte do questionário deveria ser suprimida, pois respondê-la me deixa muuuuito embaraçada. Mas vamos lá, li muito Sidney Sheldon quando era adolescente, fazer o quê?
J.J. Benítez : Confesso, li quase toda a Operação Cavalo de Tróia, fiquei esperando a conclusão, mas ela saiu quando eu não estava mais interessada...
Anne Rice: Meu Deus! A humilhação continua! Li todos os livros sobre o vampiro Lestat, alguns sobre bruxas, mas não cheguei à Múmia...

Os 4 livros que eu levaria para uma ilha deserta:

Don Quijote de la Mancha de Cervantes: Don Quijote (ou Quixote) e Sancho Pança protagonizam a mais bela história de amizade e amor que conheço, eles são os personagens mais humanos de toda a literatura: são mesquinhos, ignorantes, geralmente ridículos, mas capazes de grandes demonstrações de amizade e bondade.
As mil e uma noites: adoro suas histórias com perfumes e sabores orientais...
Contos de Genji de Murasaki Shikibu: há anos estou para me atracar com esse livro, uma espécie de diário escrito por uma cortesã no Japão feudal.
Trilogia do Cairo de Naguib Mahfuz: ela conta a história de várias gerações de uma família no Cairo entre a primeira Guerra Mundial e a queda da monarquia no Egito, maravilhosa.

As 4 (x4) últimas palavras de meu livro preferido (também como a Elvira é a última estrofe de um de meus poemas favoritos de Pessoa, Hora Absurda:)

"O que é que me tortura?... Se até a tua face calma
Só me enche de tédios e de ópios de ócios medonhos...
Não sei... Eu sou um doido que estranha a sua própria alma...
Eu fui amado em efígie num país para além dos sonhos..."

Os 4 (+4) primeiros livros de minha lista de (re)leitura:

Anna Karenina, Tolstoi
Gargantua e Pantagruel, Rabelais
Tu rostro mañana, Javier Marías
After Dark, Haruki Murakami (Eba! Ainda há Murakamis para ler! A tradução americana será lançada este mês)

Para reler:

Kafka on the shore, Haruki Murakami
Kokoro, Natsume Soseki
Cem anos de solidão, Gabriel Garcia Marquez
A cor púrpura, Alice Walker

Este meme está aberto a todos os amantes da literatura que quiserem respondê-lo!

sábado, maio 05, 2007

Adorei!

as respostas da karen para o questionário literário que está rolando por aí!
vejam aqui.

segunda-feira, abril 30, 2007

L'art du roman (A arte do romance) - Milan Kundera

A arte do Romance é um dos primeiros livros de ensaios e reflexões de Kundera, o seguinte é Testamentos Traídos, A Cortina é o último. Agora posso dizer que li todos. Gosto do Kundera como escritor, li vários de seus romances e me lembro de tê-los achado bons, mas se me perguntarem o enredo de qualquer um deles, não conseguiria contar nada! Que coisa feia, não é mesmo?
O Kundera ensaísta não se cansa de comentar os autores e obras de que gosta e fazem parte sua formação como escritor: Kafka, Rabelais, Cervantes, Flaubert, Tolstoi, Gombrowics, Hermann Broch... Ele sempre os usa como exemplos do que seria uma grande criação literária. Ele fala das traduções, que se revelam quase sempre filhos infiéis, pois os tradutores gostam de criar expressões e de mudar palavras de acordo com o que julgam soar melhor, fala de seu próprio processo criativo, de como seus romances podem ser comparados a composições musicais, aliás, Kundera estudou música durante muito tempo antes de se tornar escritor e seu pai também era músico. Crítica literária de peso, boa crítica de época e de gostos.


quarta-feira, abril 11, 2007

Blind Willow, Sleeping Woman - Haruki Murakami

Um dos meus últimos Murakamis... Esse livro de contos foi traduzido e publicado nos EUA no ano passado. São 24 contos nos quais o autor se diverte com o leitor, histórias bem ao seu estilo, com direito a mistérios sem solução e uma certa melancolia. Antes de ler o livro, já tinha passado os olhos em uma crítica do Times Literary Supplement no qual o comentador dizia que Murakami, ao contrário de seu hábito, deixava o lado fantasioso de lado nas histórias desse livro. Creio que há alguma verdade nisso. As histórias são mais "pé no chão", muitas vezes mais parecidas com crônicas. A grande maioria trata de pessoas e relacionamentos. E já existe bastante material aí. Mas talvez seja exagero dizer que não há nada "peculiar" nelas.
Gostei muito de "A folklore for my generation: A pre-history of Late-Stage Capitalism", no qual um antigo colega de classe do narrador conta seu relacionamento com a namorada de adolescência. Já tinha lido a história na New Yorker, ela é muito bonita, doce e terna.
"Dabchick", começa com o narrador percorrendo galerias do esgoto em busca de um lugar onde seria entrevistado para um suposto emprego, não somos informados sobre o gênero de trabalho, mas, como o narrador diz, o pagamento é bom. Após andar por vários minutos em busca de uma porta, ele encontra o homem encarregado de levá-lo até seu chefe, mas antes, ele precisa falar qual é a senha do dia... O diálogo entre os dois é muito divertido e me vi rindo enquanto lia.
Leitura gostosa, mas, como sempre, prefiro seus romances.
Murakami, quando sai seu próximo livro, por favor!! I'm a book junkie!

quarta-feira, abril 04, 2007

O caçador de pipas


Um livro que não te larga. Essa é a definição mais apropriada para esse livro (de acordo com a minha própria experiência, esteja bem claro :-).

Minha melhor amiga, a Kan, emprestou-me esse livro há algum (bastante) tempo. Ele estava ali em minha cabeceira e como bem disse Matthew Shirts em sua coluna segunda-feiral do Estadão, "Há uma pilha de livros no criado-mudo, como acontece em muitos domicílios. Alguns poucos já li, outros, a maioria, pretendo ler, mas no fundo, no fundo sei que não vou. Ficam ali como um atestado de boas intenções." Bem, na verdade, eu tinha um pouco de receio de lê-lo, pois já me via chorando página após página.

Mas eu ia ao cabeleireiro naquele dia e o livro que eu estava lendo tinha chegado ao fim. Eu tinha alguns minutos para decidir o que levar pois, para variar, estava atrasada para sair. Revira daqui, mexe dali... e dei de topa com o livro. E falei: é hoje! Meti o danado na sacola e fui embora.

Os dois primeiros capítulos me deixaram um pouco confusa, não conseguia situar direito as personagens. Mas depois disso... eu não consegui despregar os olhos do livro. Incrível. Li um tanto no cabeleireiro (fazendo uma digressão, nunca sei se vai demorar ou não quando vou ao Benê porque é ele quem tem o poder de decisão do que fazer no meu cabelo), tive sorte pois foi um dia de tintura.

Antes de dormir, peguei de novo no livro pensando 'só mais um pouquinho'. Não consegui mais parar. Isso era por volta de meia-noite e meia. A cada página virada, eu falava só mais um pouquinho, só mais um pouquinho. Até que percebi que não conseguiria dormir antes de descobrir o que afinal tinha acontecido de tão terrível entre as duas personagens principais do livro. Resolvi levantar e ir para a espreguiçadeira - meu local favorito de ler e, afinal, deixar o pobre do Gumpa dormir em paz.

Fui lendo página após página, embevecida, comendo as palavras, virando-as tão rápido quanto o meu cérebro permitia, às vezes ansiando por que o autor fosse mais econômico nas descrições e chegasse logo ao ponto. Deitei o livro finado às 9 da manhã seguinte.

O livro me engoliu, uma maravilha. A narrativa envolvente e cativante vai te levando numa vertigem e você quer saber mais, mais, mais. Além do enredo do romance em si, o pano de fundo sobre a história do Afeganistão, a invasão, a guerra e as privações é algo que te pega. Pelo menos a mim. E isso foi uma descoberta incrível pois eu nunca consegui aprender História e Geografia na escola. E agora, depois de 35 anos, descobri que a literatura, os quadrinhos, o cinema podem suprir essa lacuna da minha formação. Khaled Hosseini mostra como esse país foi devastado em tão pouco tempo. É triste e pungente assim como o é a história de Amir e Hassan, as personagens principais e amigos inseparáveis de uma amizade improvável mas que sempre foi sem nunca poder ter sido.

Não sei se foi a minha avidez que me fez ter essa percepção de que o autor poderia ter sido mais econômico em algumas descrições. Olhando em retrospectiva, também achei que ele fez Amir de gato-e-sapato. Desde que comecei a estudar essa questão da criação e do desenvolvimento de personagens tenho prestado mais atenção a esse ponto. Bom, pode ser uma opinião particular.

De toda maneira, é um livro que vale a pena ser lido!

Kan, adorei o livro, apesar de ter ficado com a cara inchada o resto do dia :-)!

PARA DESFRUTAR
Fiquei com vontade de:
» comer no Gopala Prasada, pelas descrições cabeça-gorda que ele faz no livro (apesar de o Gopala ser um restaurante indiano ovo-lacto-vegetariano)
» ouvir a trilha do "Paciente Inglês", a única mais próxima do que eu já tenha ouvido um dia daquelas bandas do mundo
» tomar o chai da Agdá
» rever Babel

SERVIÇO
título O caçador de pipas
autor Khaled Hosseini
editora Nova Fronteira
páginas 365 páginas
título original The Kite Runner
tradução de Maria Helena Rouanet
preço médio R$ 39,90

sábado, março 31, 2007

Ther Curtain - Milan Kundera

Milan Kundera é o autor de vários romances em Tcheco e em francês, entre eles, "A insustentável leveza do ser", que foi filmado. The Curtain é um livro de ensaios sobre a literatura do ponto de vista do autor. Neles, Kundera fala da relação de suas experiências como um emigrado tcheco em outro país, no caso, a França, e a sua obra, bem como da relação da obra de vários de seus autores favoritos (Rabelais, Cervantes, Fielding, Flaubert, Tolstoy, Hermann Broch, Franz Kafka, entre outros) com a sociedade em que vivem. A forma como cada um deles conta uma história, como ela se torna bem sucedida e completa em si mesma, sobre o que cada uma delas nos traz, também são tópicos abordados.

Apesar dele não negar suas origens e trazer a Tchecoslováquia em seu sangue e em sua memória, ele parece detestar quando as pessoas o definem como "o exilado tcheco", de fato, é uma generalização e, como qualquer generalização, ela é empobrecedora. Questões pessoais do autor à parte, os ensaios são bem variados, alguns são brilhantes, outros, nem tanto.

Adoro ler o que os escritores têm a dizer sobre a literatura e sobre os autores de que gostam, acho que é algo muito mais enriquecedor do que ler obras de teoria literária que, como Kundera diz, costumam propagar banalidades.

domingo, março 25, 2007

The elephant vanishes - Haruki Murakami

Esta é uma coletânea de contos do Murakami. São dezessete contos dele reunidos em um livro. O primeiro é praticamente o primeiro capítulo de Wind-up bird. Em seu último livro de contos "Blind Willow, Sleeping woman", o autor mesmo escreve que muitas vezes um conto acaba se transformando em um livro, outro conto, "Barn Burning" tem algo de "Minha querida Sputnik"... A impressão que você tem ao ler os contos, é a de que eles poderiam servir de prólogo para um novo romance. São bons, mas acho que os personagens do Murakami se revelam melhor em histórias mais longas, é como se eles precisassem de espaço para se exporem e nos conquistarem de vez. Claro que há muitas pessoas que discordam da minha opinião, como é possível ler nas críticas feitas à sua última coletânea na Amazon.
Já tinha lido "Lederhosen", a história da mulher que descobre que não gosta do marido e pede divórcio quando viaja até a Alemanha e decide comprar uma daquelas calças/shorts de couro típicos do país, em uma New Yorker antiga. Alguns de seus contos foram publicados pela revista em diferentes momentos.
Os contos de que mais gostei foram "The little green monster" e "A slow boat to China", este último conto é um primor! O narrador fala sobre os chineses que cruzaram seu caminho em diferentes momentos de sua vida com nostalgia: um professor que entrega provas em um exame quando ele era criança, uma garota com quem trabalha nas férias no primeiro ano da universidade e um garoto que reencontra já mais velho vendendo enciclopédias. Muito tocante, talvez porque as pessoas que conhecemos algum dia, mesmo aquelas para as quais não demos muita importância, servem de pontos de referências para a história de nossas vidas.

quarta-feira, março 14, 2007

A wild sheep chase (Caçando Carneiros) - Haruki Murakami

Mais um Murakami se vai.
Há sempre um sentimento de melancolia quando um bom livro chega ao seu fim, especialmente porque eu li sua continuação, Dance, Dance, Dance, antes de A wild sheep chase, ou Caçando Carneiros, como foi traduzido no Brasil.
O mesmo personagem de Dance, quatro anos mais novo, narra sua busca por um carneiro muito especial que escolhe algumas pessoas para serem seus hospedeiros e realizarem seus planos. Sua busca o leva até Hokkaido, no norte do Japão, é lá que ele se hospeda no Dolphin Hotel e conhece o Sheep Professor. É em Hokkaido, também, que ele encontra o Sheep Man...
Apesar da história inusitada, Murakami fala da solidão, da perda e do sentimento de falta de sentido da vida com muita delicadeza. Depois deste livro, restam duas coletâneas de contos para eu ler. Espero que haja mais alguma coisa sendo traduzida para alguma língua inteligível, assim não me sentirei orfã de Murakamis....