quinta-feira, janeiro 31, 2008

Ni d'Éve ni d'Adam - Amélie Nothomb

Amélie Nothomb (a garota da capa acima) é uma escritora belga que nasceu no Japão, onde viveu até os cinco anos. Ela morou em vários outros países devido ao trabalho de seu pai, um diplomata da Bélgica. Pelo o que li, ela é uma escritora bastante prolífica, um livro publicado por ano para cada dois deixados na gaveta. Descobri seu trabalho assistindo a um filme (isso está ficando comum...), Stupeur e Tremblements (Estupor e Tremores), baseado em seu romance autobiográfico com o mesmo nome de 2001. Aos vinte e um anos, ela retorna ao Japão para fazer um curso de japonês comercial em Tóquio e, no ano seguinte, ela é contratada para trabalhar em uma grande empresa japonesa. Nesse livro, ela narra sua vida corporativa japonesa e as desventuras que precisa enfrentar ao cair em desgraça junto da mulher a quem está subordinada. Ela é submetida a humilhações constantes, é proibida de falar japonês, apesar de conhecer a língua, e termina limpando banheiros. Ao final de um ano terrível, ela pede demissão e volta para a Bélgica. Esta é a história do filme que, apesar de não ser classificado como uma comédia, tem momentos bem divertidos.
Ni d’Éve, ni d’Adam (
Nem de Eva, nem de Adão) é o primeiro livro dela que leio, ele saiu no ano passado e me interessou devido ao tema, ela retoma suas experiências no Japão por um outro ângulo e escreve que “se Estupor e Tremores dá a impressão de que, no Japão, na idade adulta, ela foi a mais desastrada das empregadas, Nem de Eva, nem de Adão revelará que, na mesma época e no mesmo lugar, ela também foi a noiva de um habitante de Tóquio muito singular”. E é verdade, ela conta seu relacionamento com Rinri, que ela conhece em seu primeiro ano no Japão, um rapaz para quem ela dá aulas de francês e com o qual termina se envolvendo.

O livro é muito bom, de leitura rápida e agradável. Amélie escreve com agilidade e tem um humor todo seu.
Traduzi o começo do primeiro capítulo, o primeiro encontro de Rinri e Amélie, ele é divertido:

“O meio mais eficaz para aprender japonês me pareceu ser ensinar francês. No supermercado, deixei um pequeno anúncio: ‘Aulas particulares de francês, preço atraente.’
O telefone tocou na mesma noite. O encontro foi marcado para o dia seguinte em um café de Omotesando. Não entendi seu nome, ele também não entendeu o meu. Ao desligar, dei-me conta de que não sabia como reconhecê-lo, ele também não. E como não tive a presença de espírito de pedir seu número, aquilo não se arranjaria . ‘Talvez ele me ligue outra vez por esse motivo’, pensei.
Ele não ligou. A voz me pareceu jovem. Aquilo não me ajudaria muito. A juventude não estava em falta em Tóquio em 1989. Muito menos naquele café de Omotesando, em 26 de janeiro, por volta das quinze horas.
Eu não era a única estrangeira, longe disso. Entretanto, ele marchou diretamente na minha direção sem hesitar.
- Você é a professora de francês?
- Como você sabia?
Ele levantou os ombros. Muito rígido, ele se sentou e se calou. Compreendi que eu era a professora e que cabia a mim ocupar-me dele. Fiz perguntas e soube que ele tinha vinte anos, que se chamava Rinri e que estudava francês na universidade. Ele soube que eu tinha vinte e um anos, que me chamava Amélie e que estudava japonês. Ele não entendeu minha nacionalidade. Eu já estava acostumada com aquilo.
- A partir de agora, não temos mais o direito de falar em inglês, disse.
Conversava em francês para conhecer seu nível: ele se revelou consternador. O mais grave era a sua pronúncia, se eu não soubesse que Rinri falava comigo em francês, teria acreditado que se tratava de um iniciante muito ruim de chinês. Seu vocabulário escasseava, sua sintaxe reproduzia mal aquela do inglês que, no entanto, parecia ser a sua absurda referência. Ora, ele estava no terceiro ano de estudos de francês na universidade! Tive a confirmação da derrota absoluta do ensino de línguas no Japão. Em tal grau, aquilo não podia ser chamado de insularidade.
O jovem deve ter se dado conta da situação, pois ele não demorou a se desculpar, depois se calou. Eu não consegui aceitar aquela derrota e tentava fazer com que ele voltasse a falar. Em vão. Ele mantinha a boca fechada como se quisesse esconder dentes estragados. Estávamos em um impasse.
Comecei a falar em japonês. Eu não praticava desde os cinco anos de idade e os seis dias que tinha passado no país do sol nascente, depois de dezesseis anos de ausência, não tinham sido suficientes, longe disso, para reativar minhas lembranças infantis daquela língua. Eu produzi um galimatias pueril sem pé nem cabeça. Falava sobre agentes de polícia, cães e cerejeiras em flor.
O garoto me escutou com assombro e terminou por cair na gargalhada. Ele me perguntou se tinha sido uma criança de cinco anos que me havia ensinado japonês.
- Sim, respondi. A criança, sou eu.
E contei-lhe meu trajeto. Eu o narrei lentamente em francês, graças a uma emoção particular, senti que ele me compreendia.
Eu o tinha descomplexado.
Em um francês pior do que horrível, ele me disse que conhecia a região em que eu tinha nascido e onde havia passado meus cinco primeiro anos: Kansai.
Ele era de Tóquio, onde seu pai dirigia uma grande escola de joalheria. Ele se calou, esgotado, e bebeu seu café de um só gole.”


sábado, janeiro 26, 2008

Chroniques d'Asakusa - Yasunari Kawabata

Eu não visitei Asakusa (um distrito de Tóquio) e sempre lamentei esse fato. Tive apenas um dia para passear na cidade e decidi gastá-lo indo até outro bairro famoso no universo literário japonês, Ueno. Fui até lá na parte da tarde, queria conhecer o zoológico mais antigo do Japão e ver o panda que é uma de suas grandes atrações, mas o zoo estava fechado. Ele fica no meio de um parque e, ao seu redor, há vários museus, inclusive o Museu Nacional de Tóquio, não perdi tempo, passei a tarde vendo os quadros de uma exposição de pintores flamengos em um pequeno museu na frente da estação e depois atravessei a rua e fui ver os artefatos egipícios que estavam em exposição no Museu Nacional naquela época. Andei, andei, peguei o trem e voltei para o hotel e, no dia seguinte, dirigi-me novamente para Ueno de manhã cedo. Estava decidida a ver o panda. E vi. E era algo melancólico vê-lo através do vidro espesso comendo bambu sentado sobre o chão revestido de piso cerâmico.
Dei uma volta pelo zoo, tomei uma fanta verde fluorescente de sabor melão (de que não gostei), saí do zoológico, desci uma rua ao lado da estação e encontrei um sebo onde comprei um livro de gravuras em francês para presentear O. e um livro com fotos do acervo do Museu Nacional, voltei para o hotel e dei adeus a Tóquio.
Lamento não ter ido até Asakusa, ao menos para ver a grande lanterna do Kaminarimon. Depois de ler o livro de Kawabata, lamentei ainda mais não ter ido lá conferir como é o bairro nos dias de hoje. No período retratado por ele, os anos trinta, Asakusa é o bairro das prostitutas, dos vagabundos, malandros e mendigos. Era o inferninho de Tóquio, um lugar a ser evitado pelas pessoas de boa reputação, hoje as coisas mudaram muito e Asakusa tornou-se uma das atrações turísticas mais tradicionais da cidade.
Este livro de Kawabata não é um romance, mas uma coleção de notas e quadros que caracterizam Asakusa no período. Não é um de meus preferidos (que são O país das Neves e O som da montanha), mas vale por nos fazer saborear um pouco da história do Japão, e há algumas imagens bonitas, como só Kawabata sabe escrever:

"Uma luz rosa refletia-se sobre o asfalto que brilhava como uma chapa de chumbo. Pontos vermelhos dispersos aqui e ali flutuavam ao acaso sobre a cidade. Ouvia-se o eco do bonde. Eram cinco horas da manhã. À luz irisada do sol, a urina da véspera desenhava longas faixas paralelas no asfalto. "

(Eu sei, urina na rua não é algo poético, mas tiro o meu chapéu para quem consegue usar essa imagem como o Kawabata.)

quarta-feira, janeiro 23, 2008

As mil e uma noites


Mil e uma noites passaram sem que notasse a chegada da alvorada.
Mil e uma vezes fui entretida pela bela vestida com véus e seda.
Sua voz conduziu-me às tribos dos desertos e tive a honra
de entrar nos palácios de sultões e emires.
Provei pratos exóticos, beijei virgens,
adormeci ao som dos alaúdes
nas tardes perfumadas de almíscar.
Fui conquistada pelo encanto do oriente,
conheci uma Bagdá onde não explodem bombas
e o povo celebra e goza a vida.

* As mil e uma noites em sua versão integral não é exatamente um livro de contos de fadas, está bem mais próximo do Satyricon do que dos contos da Carochinha.
(*E mil e uma noites não significam mil e uma histórias, várias delas são longas e estendem-se por várias noites).


sábado, janeiro 19, 2008

Josep M. Castellet

Em um período em que vivemos uma carência de mestres, pessoas que ouvimos com admiração, é sempre revigorante ler uma entrevista tão lúcida como esta publicada no La Vanguardia (em espanhol). Eu não conhecia Josep M. Castellet, um crítico literário espanhol, mas o que ele diz faz muito sentido. Obrigada, pela indicação, Manuel!

The woman in the dunes - Kobo Abe

Ando lendo com a voracidade da época do colégio, fazia algum tempo que isso não acontecia. Enquanto pesquisava para meu mestrado e doutorado, não tinha tempo para ler as coisas de que gostava, praticamente não lia muita literatura, mas livros longuíssimos sobre um ou outro aspecto do século XVIII e alguns tratados de pensadores obscuros (em vários sentidos), às vezes era tão chato que sentia vontade de fechar os olhos e de não dirigi-los para nada impresso sobre uma folha de papel pelo resto da minha vida. Uma época de que não sinto saudades.
Este foi o primeiro livro do Kobo Abe que li, o livro sempre esteve na estante, mas fui lê-lo depois de assistir a um filme baseado na obra, ele foi filmado em 64 e ganhou um prêmio do júri no festival de Cannes (o ator principal é o mesmo de Hiroshima mon amour, outro grande filme). A versão filmada é muito boa e bastante fiel ao livro que conta a história de um professor e entomologista amador, Junpei Niki, que viaja até uma praia cheia de dunas para coletar insetos. Ele perde o último ônibus e os habitantes do vilarejo local oferecem-lhe alojamento na casa de uma mulher que mora sozinha, a casa praticamente fica em um buraco circundado pela areia e é preciso descer por meio de uma escada de cordas. Muitas casas estão na mesma situação e para evitar que elas sejam engolidas pelas dunas, seus habitantes devem trabalhar todas as noites recolhendo areia com pás. Contra a sua vontade, Junpei vê-se preso dentro do buraco e deve trabalhar para receber água, ou seja, para manter-se vivo. Seu relacionamento com a mulher, nunca nomeada, que o trata muito bem, mas que ele considera muito simples e condicionada a aceitar aquele tipo de existência, desenvolve-se de forma imprevista.
A areia serve de ensejo para várias reflexões sobre a vida e a existência humana.

"Eles mencionaram uma família de classe média agrícola que havia acrescentado terras à sua propriedade, comprado máquinas e estavam indo muito bem quando o filho mais velho de repente abandonou o lar. Ele era um jovem quieto, trabalhador e seus pais ficaram totalmente surpresos. Eles não sabiam o motivo. Nos vilarejos do campo você tem obrigações sociais e reputação a zelar, portanto, realmente deveria haver uma razão para o herdeiro da família abandonar o lar...
- Sim, certamente. Uma obrigação é uma obrigação.
- Parece que um dos pais se deu ao trabalho de encontrar o jovem e ouvir sua história. Ele não estava vivendo com uma mulher e não parecia coagido por débitos ou prazeres, não havia nenhum motivo concreto. Então qual era a razão? E o que o jovem disse não fazia qualquer sentido. Ele parecia incapaz de explicar seu ato muito bem para si mesmo, dizia apenas que ele não podia mais suportar aquilo.
- Realmente há gente estúpida no mundo, não é verdade?
- Mas quando você reflete sobre isso, você entende seus sentimentos. Quando os agricultores aumentam sua área de cultivo, eles têm muito mais trabalho a fazer. No final, não há fim para as suas atividades e eles acabam com muito mais coisas para fazer. Entretanto, o agricultor ao menos tem um retorno em batatas e arroz. Comparado com o trabalho de um agricultor, remover areia é como tentar empilhar pedras no Rio do Hades, onde os demônios carregam-nas tão rápido quanto você as joga lá dentro.
- Bem, o que acontece com o Rio do Hades no final?
- Nada. É uma punição infernal precisamente porque nada acontece.
- E o que acontece com o filho no final?
- Ele tinha planejado tudo e provalmente até mesmo arranjado um emprego antes de agir.
- E o que ele fez?
- Ele foi lá e começou a trabalhar.
- E depois?
- Depois disso, ele provavelmente recebia seu dinheiro no dia de pagamento e aos domingos eu acredito que ele vestia uma camisa limpa e ia ao cinema."


quinta-feira, janeiro 17, 2008

2 x Coetzee

Os dois últimos livros do Coetzee que li foram Foe, um tipo de releitura da história do Robinson Crusoé narrada do ponto de vista de uma mulher que acaba naufragando na ilha na qual ele vive e posteriormente conta suas aventuras para Daniel Dafoe, o verdadeiro autor do romance. Personagens reais e imaginários misturam-se, realidade e ficção também.


O segundo livro foi In the heart of the country, também um romance narrado do ponto de vista feminino. Quase um diário das lucubrações, delíros e paixões da protagonista que vive em uma propriedade no meio do nada no interior da África do Sul junto com seu pai viúvo e alguns empregados negros. O relacionamento com seu pai é tenso, ele não demonstra qualquer afeto por ela e isso a mortifica, sua reação quando ele toma a mulher de um de seus empregados como amante é agressiva. Uma história dura sobre a vida de uma mulher solitária e também sobre o relacionamento entre negros e brancos em um país dividido.


sexta-feira, janeiro 11, 2008

Sommerhaus, später - Judith Hermann

Descobri a escritora alemã Judith Hermann quando estava assistindo a um programa na Deutsche Welle (o canal alemão) e mencionaram um filme que estreou no final do ano passado baseado no seu último livro, Nichts als Gespenster (Nada além de fantasmas seria uma boa tradução), que trata de várias histórias sobre pessoas na faixa dos trintas anos meio perdidas no mundo e que vêem a vida passar por elas. Pensei, "mas é meio como me sinto...", e fui ver o que ela tinha escrito. Descobri que ela publicou apenas dois livros de contos, o último, no qual o filme foi baseado é de 2003, e o primeiro, que a transformou em uma das novas promessas da literatura alemã, Sommerhaus, später , algo como Casa de veraneio, mais tarde, é de 1998. Namorei os livros durante um bom tempo na Amazon alemã, li os comentários dos leitores e finalmente comprei os dois. Como são contos, achei que não seria muito penoso lê-los na língua original e poderia melhorar meu vocabulário.
Sommerhaus é escrito de uma forma simples, fluida (quatro anos pagando o curso parece ter adiantado algo, mesmo assim, usei bastante o dicionário). O livro é constituído de nove contos. As histórias são variadas, mas o que não varia é a impressão de que os personagens estão dentro de um aquário olhando as coisas se moverem ao redor. As frases que se repetem sempre são "ele/ela acendeu um cigarro" e "observava as partículas de poeira no ar". Eu concordo com as pessoas que comentaram que as histórias são bonitas, mas que nada acontece nelas. Falta algo, os personagens sofrem de uma paralisia de sentimentos e de vontade. Não há tensão, alguém escreveu que a autora escreve contos "blasé", acho que é isso mesmo. Fiquei um pouco decepcionada, mas fiquei feliz por conseguir ler algo na língua.
Próxima parada, Nichts als Gespenster .


segunda-feira, janeiro 07, 2008

The discovery of France - Graham Robb

"Agora você não pode me dizer que eu nunca a levei para a França". Foi dizendo isso que O. me estendeu este livro. Apesar de não ser exatamente a idéia que tinha em mente quando lhe dizia que gostaria de "conhecer a França", acho que aprendi coisas muito interessantes lendo as suas páginas. Por exemplo, é possível ver como a idéia de um país unido e homogêneo é bem recente, até meados do século XIX, há lugares inexplorados ou pouco conhecidos e muito do que era chamado de "francês" na época deveria ser chamado de "parisiense" para ser mais correto. Foi por meio de um longo processo educativo (com direito a tabefes e cascudos) que a língua francesa conseguiu prevalecer diante dos diversos dialetos regionais e foi necessário superar a desconfiança dos habitantes de diversos vilarejos para mapear todas as regiões. O livro começa narrando o ritmo moroso das viagens longas por estradas precárias e a penúria dos rincões isolados e termina com uma França mais parecida com aquela que conhecemos, mas a nostalgia em relação a tudo o que se perdeu com a modernização e o progresso é inevitável.
Graham Robb conta vários fatos pitorescos, ele descreve o modo como cães treinados eram usados para contrabandear sal e outros produtos através da fronteiras e menciona como os barqueiros que transportavam barris de vinho da Borgonha até Paris faziam suas próprias "degustações" durante a viagem que durava vários dias. Apenas a título de curiosidade, traduzi um trecho sobre a alimentação no começo do século XIX:

"Para os turistas que se aventuravam além de Paris, o verdadeiro sabor da França era o de pão amanhecido. O grau de envelhecimento refletia a disponibilidade de combustível. Um manual de arquitetura rural publicado em Toulouse em 1820 declarava que o forno público deveria ser suficientemente grande para permitir que o pão da semana pudesse ser assado em um único período de vinte e quatro horas. Nos Alpes, pão suficiente era feito de uma só vez para durar um ano e às vezes dois ou três anos. Ele era assado, ao menos uma vez, depois pendurado sobre um fogo fumarento ou seco ao sol. Às vezes, o "pão" era apenas um biscoito de farinha de cevada e feijão. Para torná-lo comestível e melhorar a cor, ele era amaciado em coalhada ou soro de leite. Pessoas ricas usavam vinho branco."

Talvez a França no período não seja apresentada de seu melhor ângulo, mas o livro mostra como o país em particular, e a Europa em geral, creio eu, passou por mudanças profundas na virada do século XIX para o XX.



sexta-feira, dezembro 28, 2007

Diary of a bad year - Coetzee

Coetzee veio para a Flip e leu trechos deste livro para o público. Não sei se o público gostou, pelo o que li, a recepção não foi lá muito calorosa.
O livro não é um romance, mas consiste de vários ensaios sobre as opiniões do autor sobre política, arte e de suas experiências como escritor. Cada página é divida em três pedaços, acima ficam os ensaios e abaixo está o "diário" propriamente dito. Um trecho é escrito pelo autor dos ensaios, o Sr. C, e o outro por Anya, uma garota que mora no mesmo prédio do autor e que ele contrata para datilografar os seus textos. O espaço destinado a Anya e ao Sr. C serve para que ambos expressem suas críticas aos ensaios da parte superior e dão um ar mais pessoal à obra.
A primeira parte do livro, aquela que trata mais de política e do mundo, é um pouco tediosa (como Anya mesmo diz ao autor), mas a segunda parte, composta de pequenos ensaios sobre o dia a dia e as experiências do autor, é quase confessional. Gostei bastante do livro, dá para confirmar que há muito de Coetzee em Elizabeth Costello, um tipo de alter ego do escritor, mas aqui ele fala em primeira pessoa. Talvez a única coisa um pouco desagradável seja ter que ler o ensaio inteiro e depois voltar para ler os dois pedaços abaixo dele, mas eles são curtos e rápidos. Eis um trecho:

"Leio o trabalho de outros escritores, leio as passagens de densa descrição que eles compõem com grande esmero e trabalho com o propósito de evocar espetáculos imaginários diante do olho interno, e meu coração vai a pique. Eu nunca fui muito bom em evocar o real, e tenho ainda menos estômago para a tarefa agora. A verdade é: eu nunca derivei muito prazer no mundo visível, não sinto com grande convicção a necessidade de recriá-lo com palavras."

Sobre a vida escrita

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Life and times of Michael K.

Se o Daniel perguntasse qual o melhor livro que li nestes últimos dias, diria que foi Life and Times of Michael K. do J.M. Coetzee. Tenho fases de leitura e às vezes leio vários livros de um mesmo autor um atrás do outro. Atualmente é o Coetzee, um autor sul-africano que mora na Austrália. O livro em questão foi publicado em 1983, vinte anos antes dele ganhar o Nobel, mas é muito bom! Comecei a ler Coetzee começando com Disgrace, provavelmente seu livro mais aclamado, e continuei com suas obras mais recentes (Elizabeth Costello, Master of Petersburg, Slow Man), agora faço o caminho inverso (antes de seguir com esse projeto, entretanto, lerei Diary of a bad year).
Life and Times of Michael K. conta a história de Michael, filho de uma empregada doméstica que nasceu com lábios leporinos e algum retardo mental. Ele cresce em uma instituição para portadores de deficiência, entra para o serviço público e vira jardineiro na cidade do Cabo. Ele está com trinta anos, sua mãe está doente e a África do Sul está em guerra. É nesse cenário que Michael parte carregando sua mãe em uma carriola improvisada em direção ao interior do país. A viagem é árdua, sua mãe morre no caminho, mas Michael prossegue em uma viagem marcada por suas estadas escondido na estepe ou nas montanhas, alimentando-se de insetos, pequenos animais e raízes, e passagens por campos de trabalhadores e hospitais. Michael é um personagem tocante, como alguém descreve bem, ele é um ser original, que vive alheio à guerra, sem preocupações maiores do que observar as coisas ao seu redor de forma impassível.
Eis como o próprio Michael descreve sua vida:

"Em todos os lugares para onde vou, há pessoas esperando executar suas formas de caridade em mim. Todos esses anos e eu ainda trago o ar de um órfão. Elas tratam-me como as crianças de Jakkalsdrif que estão preparadas a alimentar porque ainda são muito jovens para ser culpadas de qualquer coisa. Em troca, elas esperam apenas um gaguejo de agradecimento das crianças. De mim, elas esperam mais, porque estive mais tempo no mundo. Elas desejam que eu abra meu coração e conte a história de uma vida vivida em jaulas. Elas querem ouvir sobre todas as jaulas nas quais vivi como se eu fosse um papagaio, ou um rato, ou um macaco. E se eu tivesse aprendido a contar histórias em Huis Norenius ao invés de descascar batatas e a fazer somas, se tivessem feito com que praticasse a história da minha vida todos os dias, vigiando-me com uma vara até que eu conseguisse fazer isso sem cometer erros, eu poderia satisfazê-las. Eu teria contado a história de uma vida em prisões nas quais eu permanecia dia após dia, ano após ano, com a testa contra a grade com os olhos perdidos na distância, sonhando com experiências que nunca teria, onde os guardas xingavam-me e chutavam meu traseiro e mandavam-me esfregar o chão. Quando minha história terminasse, as pessoas balançariam a cabeça, teriam pena, sentiriam raiva e ofereceriam comida e bebida; as mulheres me levariam para suas camas e me acalentariam no escuro. Entretanto, a verdade é que seu fui um jardineiro, primeiro para a Câmara, depois para mim mesmo, e jardineiros passam seu tempo com o nariz no chão."


domingo, dezembro 09, 2007

Dedicatória

A Mary com certeza ficaria surpresa em saber que o livro que ela deu para seu pai veio parar aqui no Brasil...

domingo, dezembro 02, 2007

Meme cultural

Vi o meme no blog da Maria Helena e tive que responder!

Último livro comprado

Apesar de gostar de ler, não costumo comprar muitos livros, quer dizer, raramente compro livros e quando compro, geralmente são dicionários ou livros de gramática de línguas estrangeiras (minhas últimas aquisições foram livros de verbos espanhóis e italianos), sou mais prática nesse aspecto. A compra de literatura cabe ao O.

Estou lendo agora

The naked heart: The bourgeois experience, Victoria to Freud do Peter Gay.

Der Prozess, Franz Kafka. ("Lendo" é maneira de dizer, pois vou devagar quase parando, cansa ficar procurando palavras no dicionário. Na verdade é uma releitura para praticar o alemão.)

Les mille et une nuits, estou no segundo volume, também devagar, após umas mil e quinhentas páginas, meu pique diminuiu.


Número de livros que tenho


Como não compro, tenho bem poucos livros MEUS, mas a biblioteca do O. é suficientemente grande para que eu deteste a época em que preciso limpá-la. (O. adora ter livros e também é um leitor voraz e ciumento, daqueles que não emprestam e não vendem para ninguém, nem mesmo membros da família, acho que eu fui a única exceção à regra e por isso tivemos que nos casar.)


Três livros que significam muito para mim

Os colegas da Lygia Bojunga Nunes, Contos do Andersen, O país das Neves (Kawabata)


Últimos filmes que vi


No cinema: Acho que foi Sin City (como podem perceber, não vou muito ao cinema...)
Na tv: Elsa e Fred, uma graça de filme.

Filmes que significam muito para mim


Imensidão Azul (Luc Besson); O pássaro azul (Walter Lang); (ops, quanto azul!); Comer, beber, viver (Ang Lee); A excêntrica família de Antônia (Gorris), Rapsódia em agosto (Kurosawa), O casamento de Muriel (Hogan).


Último cd que comprei


Quando foi que comprei meu último cd? Não me lembro... Acho que foi uma coletânea de música cubana...

Música que estou ouvindo agora


Eleni Mandell
e Edith Piaf

Três músicas que significaram muito para mim

Faroeste caboclo (Legião), Champagne Supernova (Oasis), Non, je ne regrette rien (Piaf)

Bebida Favorita

Água

Personagem favorita

A Jô de "Pequenas Mulheres" da Louisa May Alcott.

Férias favoritas

São Sebastião (litoral norte de SP) na casa de uma tia quando era criança.

Vício favorito

Doces

Aqui fica o meme para quem quiser responder!


Dica

Estou animada para ler em alemão, não que tenha me tornado assim fluente, mas estou melhorando. Peguei os livros da foto na escola , eles foram doados e na hora do intervalo no sábado passado, havia um monte à disposição dos alunos, era escolher, pegar e levar. Não havia muitas obras de autores alemães, mas consegui encontrar alguma coisa. Chegando em casa, coloquei os volumes dentro de um saco tipo ziplock e deixei no freezer de um dia para o outro, esse é um bom procedimento para matar traças e carunchos e uma boa prática caso você goste de comprar livros em sebos e tema uma infestação na sua biblioteca. Não me lembro onde aprendi isso, sei que li em algum lugar, mas a idéia é ótima.

quinta-feira, setembro 06, 2007

Ignorância - Milan Kundera

Outro dia escrevi que li vários livros do Kundera e que não me lembrava dos enredos das histórias, era verdade, mas após ler Ignorância, acho que posso explicar um pouco melhor a razão de meus "brancos". As histórias do autor giram em torno de relacionamentos, identidade e sentimentos, são eles que ocupam o papel principal e , desta forma, torna-se difícil definir um "enredo" para seus romances. Agora, uma coisa tenho que admitir, Kundera escreve belamente. Neste livro, ele narra o retorno de Irena e de Josef à República Tcheca após vinte anos de exílio em outros países da Europa e mostra como as pessoas que os conheceram olham para os dois como se fossem uma espécie de desertores e procuram fazer de conta que os últimos vinte anos de suas vidas não existiram. Kundera também fala sobre como muito nos relacionamentos humanos é baseado em equívocos:

"Imagine os sentimentos de duas pessoas que se encontram novamente após muitos anos. No passado, elas ficaram algum tempo juntas e portanto acham que estão unidas pela mesma experiência, pelas mesmas recordações. Pelas mesmas recordações? É aí que os mal-entendidos começam: elas não possuem as mesmas recordações; cada uma retém duas ou três pequenas cenas do passado, mas cada uma possui as suas próprias recordações, elas não são parecidas, elas não se cruzam; elas não são comparáveis nem mesmo em termos de quantidade: uma pessoa lembra-se da outra mais do que esta se lembra dela; primeiro, porque a capacidade da memória varia entre os indivíduos (uma explicação que cada uma delas acharia ao menos aceitável), mas também (e isso é mais doloroso de se admitir) porque elas não possuem a mesma importância para cada uma delas. Quando Irena viu Josef no aeroporto, ela lembrava-se de cada detalhe de sua aventura do passado; Josef não se lembrava de nada. Desde o primeiro instante, seu encontro estava baseado em uma injusta e revoltante desigualdade."


quarta-feira, agosto 29, 2007

A primeira Lady Chatterley - D. H. Lawrence

Meu primeiro encontro com D.H. Lawrence. O romance O amante de Lady Chatterley é famoso pelas suas cenas de sexo e pela linguagem considerada obscena, mas é preciso notar que há três versões muito diferentes da história e a última, revisada e levada à publicação pelo autor, é aquela responsável por essa fama do romance. Eu não conhecia esses detalhes e peguei a versão que encontrei em inglês, pois prefiro ler na língua original quando possível.
A Primeira Lady Chatterley conta a história de Connie, casada com Clifford Chatterley, um aristocrata que perdeu o movimento das pernas durante a guerra, e seu romance com um dos empregados da propriedade, Oliver Parkin. Ela procura este último com a intenção de satisfazer as necessidades sexuais que Clifford não é mais capaz de atender, mas apesar de tudo começar com um desejo físico, aos poucos Connie começa a ver um outro lado de Oliver que, de certa forma, desarma-a. O relacionamento envolve muitas dificuldades, ele faz parte da classe trabalhadora, ela é uma lady, e isso gera conflitos entre os dois amantes. Mesmo a linguagem de Oliver é algo que o separa do mundo de Connie.
Li que Lawrence pretendia dar o título de Ternura para o livro, creio que seria um bom título, ao menos para esta versão do romance. A descrição do relacionamento entre Connie e Oliver e de seus conflitos é muito terna e vívida. Acho que não lerei a última versão, gostei demais desta aqui.

terça-feira, agosto 21, 2007

Um trecho de "Proust contra Saint-Beuve"

"Cada dia dou menos valor à inteligência. Cada dia eu me rendo mais conta de que é apenas em seu exterior que o escritor pode reencontrar algo de nossas impressões, quer dizer, atingir algo de si mesmo e a única matéria da arte. Aquilo que a inteligência nos fornece sob o nome de passado, não é o passado. Na realidade, como acontece com a alma dos mortos em certas lendas populares, cada hora de nossa vida, assim que morre, encarna-se e esconde-se em algum objeto material. Ela permanece aprisionada ali dentro, aprisionada para sempre, a menos que reencontremos tal objeto. Por meio dele, nós a reconhecemos, nós a chamamos e ela é libertada. O objeto no qual ela se esconde - ou a sensação, pois todo objeto em relação a nós é sensação - , pode jamais ser encontrado por nós. E assim, há horas de nossa vida que nunca mais ressuscitarão. Pois esse objeto é tão pequeno, tão perdido no mundo, que há poucas chances de que se encontre em nosso caminho!"

(Esse trecho explica bem o episódio da madeleine de Proust, não?)


quinta-feira, julho 26, 2007

After the quake - Haruki Murakami

Demorei um pouco para ler este livro do Murakami, temia que ele fosse meio baixo astral porque foi escrito depois do terremoto de Kobe em 1995, mas estava enganada. O terremoto é apenas mencionado vagamente em cada um dos seis contos que compõem a coletânea, alguém vê a notícia e descobrimos que o personagem morou ou conhece alguém que mora na região e o assunto meio que morre ali. Gostei bastante deles. Murakami trata da solidão e da dificuldade envolvida nos relacionamentos pessoais sempre de modo muito delicado.

Ufo em Kushiro, é sobre um rapaz que é deixado pela esposa e vai até Hokkaido levar um pacote para a irmã de um amigo e para se esquecer de sua situação.

Paisagem com Ferroplano, mostra o relacionamento de um pintor de meia idade que gosta de fazer fogueiras com a madeira que encontra na praia e uma garota que fugiu de casa quando era mais jovem.

Todos os filhos de Deus podem dançar, é sobre um rapaz que busca respostas sobre quem é seu pai.

Tailândia, um de meus preferidos, é sobre uma médica que vai até a Tailândia para uma conferência e estende sua estadia em um resort em um local isolado.

Super-sapo salva Tóquio, também é um barato, muito divertido e bonito. Um dia um cara que trabalha em um banco encontra um sapo gigante em seu apartamento que diz que ele precisa ajudá-lo a derrotar "Verme", um ser que vive no subsolo e ameaça destruir a cidade de Tóquio...

Torta de mel, conta a história de três amigos e de seu triângulo amoroso. Também muito terno.

Agora estou sem Murakamis para ler e tenho que esperar...

segunda-feira, julho 23, 2007

Elizabeth Costello - J. M. Coetzee

Li "Disgrace" (traduzido como "Desonra" no Brasil) antes do escritor sul-africano John Maxwell Coetzee ganhar o Nobel de literatura em 2003 e o achei ótimo, depois li O mestre de São Petesburgo, cujo personagem principal é Dostoievski e, ontem, terminei Elizabeth Costello. Respectivamente, um romance sobre a questão racial na África do Sul, um livro que traz um Dostoievski atormentado em busca de respostas sobre a morte de seu enteado e as cenas da vida de uma escritora já consagrada no final de sua carreira, Elizabeth Costello.

Gosto de Coetzee, ele mereceu o Nobel e um dia espero encontrá-lo em uma Flip da vida apenas para conferir se ele é parecido com seus personagens: um pouco cínico, um pouco cansado, alguém que responderia "Whatever" para qualquer questão que lhe fizessem como se tivessem lhe perguntado algo como "Would you like to have tea or coffee?".

Acho que em Elizabeth Costello ele deixa bem clara a forma como encara a vida de um escritor. A protagonista viaja de um lado para o outro para dar palestras sobre a literatura ou para falar sobre assuntos como a crueldade com os animais, mas apesar de aceitar os convites, ela não deixa de se exasperar em ter que conversar com pessoas com as quais não se importa quando preferiria estar descansando.

No último capítulo, uma alegoria sobre a morte parecida com alguns episódios das histórias de Kafka, Elizabeth está em uma cidade estranha e quer atravessar um portão para sair de lá, mas para isso, precisa apresentar-se diante de um júri e dizer no que acredita. Ela já está na segunda audiência e se desespera, pois sabe que sua busca por alguma paixão, por algo em que professar sua fé, parece estar condenada ao fracasso.

"When she was young, in a world now lost and gone, one came across people who still believed in art, or at least in the artist, who tried to follow in the footsteps of the great masters. No matter that God had failed, and Socialism: there was still Dostoevsky to guide one, or Rilke, or Van Gogh with the bandaged ear that stood for passion. Has she carried that childish faith into her late years, and beyond: faith in the artist and his truth?

Her first inclination would be to say no. Her books certainly evince no faith in art. Now that it is over and done with, that lifetime labour of writing, she is capable of casting a glance back over it that is cool enough, she believes, even cold enough, not to be deceived. Her books teach nothing, preach nothing; they merely spell out, as clearly as they can, how people lived in a certain time and place. More modestly put, they spell out how one person lived, one among billions: the person whom she, to herself calls she, and whom others call Elizabeth Costello. If, in the end, she believes in her books themselves more than she believes in that person, it is belief only in that sense that a carpenter believes in a sturdy table or a cooper in a stout barrel. Her books are, she believes, better put together than she is."

Oh,dear Emily!

Adoro a Emily Dickinson, gosto tanto de seus poemas:

I'm nobody! Who are you?
Are you - Nobody - Too?
Then there's a pair of us!
Don't tell! they'd advertise - you know!

How dreary - to be - Somebody!
How public - like a Frog -
To tell one's name - the livelong June -
to an admiring Bog!

Este também:

I've seen a Dying Eye
Run round and round a Room -
In search of Something - as it seemed -
Then Cloudier become -
And then - obscure with Fog -
And then - be soldered down
Without disclosing what it be
'Twere blessed to have seen -

domingo, julho 15, 2007

Como acabar de uma vez por todas com a cultura - Woody Allen

Descobri Woody Allen como escritor recentemente, quando li um dos artigos que ele escreveu para a revista New Yorker no qual mistura teorias filosóficas e dietas. Eu o achei extremamente divertido, um exemplo da típica ironia woodyalleniana e fiquei feliz ao encontrar uma coletânea com outros artigos em um livro bem velhinho, publicado pela primeira vez em 1974.

O. compra livros "curiosos", então tive que ler tudo em espanhol.

Em "Como acabar de uma vez por todas com a cultura" Allen satiriza tudo e todos, desde a psiquiatria, biografia, revoluções, filosofia até o cinema e a máfia. Achei alguns artigos melhores do que outros, acho que há algumas tiradas que fazem mais sentido se você é americano ou judeu, mas no geral, é uma leitura bem interessante e que flui rápido. Eis um trecho do artigo "Como acabar com as revoluções na América Latina", os revolucionários estão na selva e um deles escreve um diário da campanha:

"10 de julho: Hoje foi, em linhas gerais, um bom dia levando em consideração que os homens de Arroyo nos emboscaram e quase nos liquidaram. Em parte, a culpa foi minha, porque revelei nossa posição ao invocar a Santíssima Trindade aos berros quando uma tarântula subiu por minha perna. Durante alguns segundos, não consegui me livrar da tenaz da maldita aranha enquanto ela abria caminho nas secretas profundezas de minha roupa fazendo com que eu corresse como um louco até o rio e me jogasse nele, o que me pareceu que durou três quartos de hora. Pouco depois, os soldados de Arroyo abriram fogo sobre nós. Lutamos com valentia, embora a surpresa tenha criado uma leve desorganização e durante os primeiros dez minutos nossos homens tenham atirado uns nos outros. Mesmo Vargas se salvou por um fio da catástrofe quando uma granada aterrissou a seus pés. Ele ordenou que me jogasse sobre ela. Consciente de que somente ele era indispensável para nossa causa, eu o fiz. O destino quis que a granada não explodisse, e saí inteiro do incidente com apenas um ligeiro tremor e a incapacidade de adormecer a menos que alguém segure uma de minhas mãos."