sexta-feira, dezembro 28, 2007

Diary of a bad year - Coetzee

Coetzee veio para a Flip e leu trechos deste livro para o público. Não sei se o público gostou, pelo o que li, a recepção não foi lá muito calorosa.
O livro não é um romance, mas consiste de vários ensaios sobre as opiniões do autor sobre política, arte e de suas experiências como escritor. Cada página é divida em três pedaços, acima ficam os ensaios e abaixo está o "diário" propriamente dito. Um trecho é escrito pelo autor dos ensaios, o Sr. C, e o outro por Anya, uma garota que mora no mesmo prédio do autor e que ele contrata para datilografar os seus textos. O espaço destinado a Anya e ao Sr. C serve para que ambos expressem suas críticas aos ensaios da parte superior e dão um ar mais pessoal à obra.
A primeira parte do livro, aquela que trata mais de política e do mundo, é um pouco tediosa (como Anya mesmo diz ao autor), mas a segunda parte, composta de pequenos ensaios sobre o dia a dia e as experiências do autor, é quase confessional. Gostei bastante do livro, dá para confirmar que há muito de Coetzee em Elizabeth Costello, um tipo de alter ego do escritor, mas aqui ele fala em primeira pessoa. Talvez a única coisa um pouco desagradável seja ter que ler o ensaio inteiro e depois voltar para ler os dois pedaços abaixo dele, mas eles são curtos e rápidos. Eis um trecho:

"Leio o trabalho de outros escritores, leio as passagens de densa descrição que eles compõem com grande esmero e trabalho com o propósito de evocar espetáculos imaginários diante do olho interno, e meu coração vai a pique. Eu nunca fui muito bom em evocar o real, e tenho ainda menos estômago para a tarefa agora. A verdade é: eu nunca derivei muito prazer no mundo visível, não sinto com grande convicção a necessidade de recriá-lo com palavras."

Sobre a vida escrita

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Life and times of Michael K.

Se o Daniel perguntasse qual o melhor livro que li nestes últimos dias, diria que foi Life and Times of Michael K. do J.M. Coetzee. Tenho fases de leitura e às vezes leio vários livros de um mesmo autor um atrás do outro. Atualmente é o Coetzee, um autor sul-africano que mora na Austrália. O livro em questão foi publicado em 1983, vinte anos antes dele ganhar o Nobel, mas é muito bom! Comecei a ler Coetzee começando com Disgrace, provavelmente seu livro mais aclamado, e continuei com suas obras mais recentes (Elizabeth Costello, Master of Petersburg, Slow Man), agora faço o caminho inverso (antes de seguir com esse projeto, entretanto, lerei Diary of a bad year).
Life and Times of Michael K. conta a história de Michael, filho de uma empregada doméstica que nasceu com lábios leporinos e algum retardo mental. Ele cresce em uma instituição para portadores de deficiência, entra para o serviço público e vira jardineiro na cidade do Cabo. Ele está com trinta anos, sua mãe está doente e a África do Sul está em guerra. É nesse cenário que Michael parte carregando sua mãe em uma carriola improvisada em direção ao interior do país. A viagem é árdua, sua mãe morre no caminho, mas Michael prossegue em uma viagem marcada por suas estadas escondido na estepe ou nas montanhas, alimentando-se de insetos, pequenos animais e raízes, e passagens por campos de trabalhadores e hospitais. Michael é um personagem tocante, como alguém descreve bem, ele é um ser original, que vive alheio à guerra, sem preocupações maiores do que observar as coisas ao seu redor de forma impassível.
Eis como o próprio Michael descreve sua vida:

"Em todos os lugares para onde vou, há pessoas esperando executar suas formas de caridade em mim. Todos esses anos e eu ainda trago o ar de um órfão. Elas tratam-me como as crianças de Jakkalsdrif que estão preparadas a alimentar porque ainda são muito jovens para ser culpadas de qualquer coisa. Em troca, elas esperam apenas um gaguejo de agradecimento das crianças. De mim, elas esperam mais, porque estive mais tempo no mundo. Elas desejam que eu abra meu coração e conte a história de uma vida vivida em jaulas. Elas querem ouvir sobre todas as jaulas nas quais vivi como se eu fosse um papagaio, ou um rato, ou um macaco. E se eu tivesse aprendido a contar histórias em Huis Norenius ao invés de descascar batatas e a fazer somas, se tivessem feito com que praticasse a história da minha vida todos os dias, vigiando-me com uma vara até que eu conseguisse fazer isso sem cometer erros, eu poderia satisfazê-las. Eu teria contado a história de uma vida em prisões nas quais eu permanecia dia após dia, ano após ano, com a testa contra a grade com os olhos perdidos na distância, sonhando com experiências que nunca teria, onde os guardas xingavam-me e chutavam meu traseiro e mandavam-me esfregar o chão. Quando minha história terminasse, as pessoas balançariam a cabeça, teriam pena, sentiriam raiva e ofereceriam comida e bebida; as mulheres me levariam para suas camas e me acalentariam no escuro. Entretanto, a verdade é que seu fui um jardineiro, primeiro para a Câmara, depois para mim mesmo, e jardineiros passam seu tempo com o nariz no chão."


domingo, dezembro 09, 2007

Dedicatória

A Mary com certeza ficaria surpresa em saber que o livro que ela deu para seu pai veio parar aqui no Brasil...

domingo, dezembro 02, 2007

Meme cultural

Vi o meme no blog da Maria Helena e tive que responder!

Último livro comprado

Apesar de gostar de ler, não costumo comprar muitos livros, quer dizer, raramente compro livros e quando compro, geralmente são dicionários ou livros de gramática de línguas estrangeiras (minhas últimas aquisições foram livros de verbos espanhóis e italianos), sou mais prática nesse aspecto. A compra de literatura cabe ao O.

Estou lendo agora

The naked heart: The bourgeois experience, Victoria to Freud do Peter Gay.

Der Prozess, Franz Kafka. ("Lendo" é maneira de dizer, pois vou devagar quase parando, cansa ficar procurando palavras no dicionário. Na verdade é uma releitura para praticar o alemão.)

Les mille et une nuits, estou no segundo volume, também devagar, após umas mil e quinhentas páginas, meu pique diminuiu.


Número de livros que tenho


Como não compro, tenho bem poucos livros MEUS, mas a biblioteca do O. é suficientemente grande para que eu deteste a época em que preciso limpá-la. (O. adora ter livros e também é um leitor voraz e ciumento, daqueles que não emprestam e não vendem para ninguém, nem mesmo membros da família, acho que eu fui a única exceção à regra e por isso tivemos que nos casar.)


Três livros que significam muito para mim

Os colegas da Lygia Bojunga Nunes, Contos do Andersen, O país das Neves (Kawabata)


Últimos filmes que vi


No cinema: Acho que foi Sin City (como podem perceber, não vou muito ao cinema...)
Na tv: Elsa e Fred, uma graça de filme.

Filmes que significam muito para mim


Imensidão Azul (Luc Besson); O pássaro azul (Walter Lang); (ops, quanto azul!); Comer, beber, viver (Ang Lee); A excêntrica família de Antônia (Gorris), Rapsódia em agosto (Kurosawa), O casamento de Muriel (Hogan).


Último cd que comprei


Quando foi que comprei meu último cd? Não me lembro... Acho que foi uma coletânea de música cubana...

Música que estou ouvindo agora


Eleni Mandell
e Edith Piaf

Três músicas que significaram muito para mim

Faroeste caboclo (Legião), Champagne Supernova (Oasis), Non, je ne regrette rien (Piaf)

Bebida Favorita

Água

Personagem favorita

A Jô de "Pequenas Mulheres" da Louisa May Alcott.

Férias favoritas

São Sebastião (litoral norte de SP) na casa de uma tia quando era criança.

Vício favorito

Doces

Aqui fica o meme para quem quiser responder!


Dica

Estou animada para ler em alemão, não que tenha me tornado assim fluente, mas estou melhorando. Peguei os livros da foto na escola , eles foram doados e na hora do intervalo no sábado passado, havia um monte à disposição dos alunos, era escolher, pegar e levar. Não havia muitas obras de autores alemães, mas consegui encontrar alguma coisa. Chegando em casa, coloquei os volumes dentro de um saco tipo ziplock e deixei no freezer de um dia para o outro, esse é um bom procedimento para matar traças e carunchos e uma boa prática caso você goste de comprar livros em sebos e tema uma infestação na sua biblioteca. Não me lembro onde aprendi isso, sei que li em algum lugar, mas a idéia é ótima.

quinta-feira, setembro 06, 2007

Ignorância - Milan Kundera

Outro dia escrevi que li vários livros do Kundera e que não me lembrava dos enredos das histórias, era verdade, mas após ler Ignorância, acho que posso explicar um pouco melhor a razão de meus "brancos". As histórias do autor giram em torno de relacionamentos, identidade e sentimentos, são eles que ocupam o papel principal e , desta forma, torna-se difícil definir um "enredo" para seus romances. Agora, uma coisa tenho que admitir, Kundera escreve belamente. Neste livro, ele narra o retorno de Irena e de Josef à República Tcheca após vinte anos de exílio em outros países da Europa e mostra como as pessoas que os conheceram olham para os dois como se fossem uma espécie de desertores e procuram fazer de conta que os últimos vinte anos de suas vidas não existiram. Kundera também fala sobre como muito nos relacionamentos humanos é baseado em equívocos:

"Imagine os sentimentos de duas pessoas que se encontram novamente após muitos anos. No passado, elas ficaram algum tempo juntas e portanto acham que estão unidas pela mesma experiência, pelas mesmas recordações. Pelas mesmas recordações? É aí que os mal-entendidos começam: elas não possuem as mesmas recordações; cada uma retém duas ou três pequenas cenas do passado, mas cada uma possui as suas próprias recordações, elas não são parecidas, elas não se cruzam; elas não são comparáveis nem mesmo em termos de quantidade: uma pessoa lembra-se da outra mais do que esta se lembra dela; primeiro, porque a capacidade da memória varia entre os indivíduos (uma explicação que cada uma delas acharia ao menos aceitável), mas também (e isso é mais doloroso de se admitir) porque elas não possuem a mesma importância para cada uma delas. Quando Irena viu Josef no aeroporto, ela lembrava-se de cada detalhe de sua aventura do passado; Josef não se lembrava de nada. Desde o primeiro instante, seu encontro estava baseado em uma injusta e revoltante desigualdade."


quarta-feira, agosto 29, 2007

A primeira Lady Chatterley - D. H. Lawrence

Meu primeiro encontro com D.H. Lawrence. O romance O amante de Lady Chatterley é famoso pelas suas cenas de sexo e pela linguagem considerada obscena, mas é preciso notar que há três versões muito diferentes da história e a última, revisada e levada à publicação pelo autor, é aquela responsável por essa fama do romance. Eu não conhecia esses detalhes e peguei a versão que encontrei em inglês, pois prefiro ler na língua original quando possível.
A Primeira Lady Chatterley conta a história de Connie, casada com Clifford Chatterley, um aristocrata que perdeu o movimento das pernas durante a guerra, e seu romance com um dos empregados da propriedade, Oliver Parkin. Ela procura este último com a intenção de satisfazer as necessidades sexuais que Clifford não é mais capaz de atender, mas apesar de tudo começar com um desejo físico, aos poucos Connie começa a ver um outro lado de Oliver que, de certa forma, desarma-a. O relacionamento envolve muitas dificuldades, ele faz parte da classe trabalhadora, ela é uma lady, e isso gera conflitos entre os dois amantes. Mesmo a linguagem de Oliver é algo que o separa do mundo de Connie.
Li que Lawrence pretendia dar o título de Ternura para o livro, creio que seria um bom título, ao menos para esta versão do romance. A descrição do relacionamento entre Connie e Oliver e de seus conflitos é muito terna e vívida. Acho que não lerei a última versão, gostei demais desta aqui.

terça-feira, agosto 21, 2007

Um trecho de "Proust contra Saint-Beuve"

"Cada dia dou menos valor à inteligência. Cada dia eu me rendo mais conta de que é apenas em seu exterior que o escritor pode reencontrar algo de nossas impressões, quer dizer, atingir algo de si mesmo e a única matéria da arte. Aquilo que a inteligência nos fornece sob o nome de passado, não é o passado. Na realidade, como acontece com a alma dos mortos em certas lendas populares, cada hora de nossa vida, assim que morre, encarna-se e esconde-se em algum objeto material. Ela permanece aprisionada ali dentro, aprisionada para sempre, a menos que reencontremos tal objeto. Por meio dele, nós a reconhecemos, nós a chamamos e ela é libertada. O objeto no qual ela se esconde - ou a sensação, pois todo objeto em relação a nós é sensação - , pode jamais ser encontrado por nós. E assim, há horas de nossa vida que nunca mais ressuscitarão. Pois esse objeto é tão pequeno, tão perdido no mundo, que há poucas chances de que se encontre em nosso caminho!"

(Esse trecho explica bem o episódio da madeleine de Proust, não?)


quinta-feira, julho 26, 2007

After the quake - Haruki Murakami

Demorei um pouco para ler este livro do Murakami, temia que ele fosse meio baixo astral porque foi escrito depois do terremoto de Kobe em 1995, mas estava enganada. O terremoto é apenas mencionado vagamente em cada um dos seis contos que compõem a coletânea, alguém vê a notícia e descobrimos que o personagem morou ou conhece alguém que mora na região e o assunto meio que morre ali. Gostei bastante deles. Murakami trata da solidão e da dificuldade envolvida nos relacionamentos pessoais sempre de modo muito delicado.

Ufo em Kushiro, é sobre um rapaz que é deixado pela esposa e vai até Hokkaido levar um pacote para a irmã de um amigo e para se esquecer de sua situação.

Paisagem com Ferroplano, mostra o relacionamento de um pintor de meia idade que gosta de fazer fogueiras com a madeira que encontra na praia e uma garota que fugiu de casa quando era mais jovem.

Todos os filhos de Deus podem dançar, é sobre um rapaz que busca respostas sobre quem é seu pai.

Tailândia, um de meus preferidos, é sobre uma médica que vai até a Tailândia para uma conferência e estende sua estadia em um resort em um local isolado.

Super-sapo salva Tóquio, também é um barato, muito divertido e bonito. Um dia um cara que trabalha em um banco encontra um sapo gigante em seu apartamento que diz que ele precisa ajudá-lo a derrotar "Verme", um ser que vive no subsolo e ameaça destruir a cidade de Tóquio...

Torta de mel, conta a história de três amigos e de seu triângulo amoroso. Também muito terno.

Agora estou sem Murakamis para ler e tenho que esperar...

segunda-feira, julho 23, 2007

Elizabeth Costello - J. M. Coetzee

Li "Disgrace" (traduzido como "Desonra" no Brasil) antes do escritor sul-africano John Maxwell Coetzee ganhar o Nobel de literatura em 2003 e o achei ótimo, depois li O mestre de São Petesburgo, cujo personagem principal é Dostoievski e, ontem, terminei Elizabeth Costello. Respectivamente, um romance sobre a questão racial na África do Sul, um livro que traz um Dostoievski atormentado em busca de respostas sobre a morte de seu enteado e as cenas da vida de uma escritora já consagrada no final de sua carreira, Elizabeth Costello.

Gosto de Coetzee, ele mereceu o Nobel e um dia espero encontrá-lo em uma Flip da vida apenas para conferir se ele é parecido com seus personagens: um pouco cínico, um pouco cansado, alguém que responderia "Whatever" para qualquer questão que lhe fizessem como se tivessem lhe perguntado algo como "Would you like to have tea or coffee?".

Acho que em Elizabeth Costello ele deixa bem clara a forma como encara a vida de um escritor. A protagonista viaja de um lado para o outro para dar palestras sobre a literatura ou para falar sobre assuntos como a crueldade com os animais, mas apesar de aceitar os convites, ela não deixa de se exasperar em ter que conversar com pessoas com as quais não se importa quando preferiria estar descansando.

No último capítulo, uma alegoria sobre a morte parecida com alguns episódios das histórias de Kafka, Elizabeth está em uma cidade estranha e quer atravessar um portão para sair de lá, mas para isso, precisa apresentar-se diante de um júri e dizer no que acredita. Ela já está na segunda audiência e se desespera, pois sabe que sua busca por alguma paixão, por algo em que professar sua fé, parece estar condenada ao fracasso.

"When she was young, in a world now lost and gone, one came across people who still believed in art, or at least in the artist, who tried to follow in the footsteps of the great masters. No matter that God had failed, and Socialism: there was still Dostoevsky to guide one, or Rilke, or Van Gogh with the bandaged ear that stood for passion. Has she carried that childish faith into her late years, and beyond: faith in the artist and his truth?

Her first inclination would be to say no. Her books certainly evince no faith in art. Now that it is over and done with, that lifetime labour of writing, she is capable of casting a glance back over it that is cool enough, she believes, even cold enough, not to be deceived. Her books teach nothing, preach nothing; they merely spell out, as clearly as they can, how people lived in a certain time and place. More modestly put, they spell out how one person lived, one among billions: the person whom she, to herself calls she, and whom others call Elizabeth Costello. If, in the end, she believes in her books themselves more than she believes in that person, it is belief only in that sense that a carpenter believes in a sturdy table or a cooper in a stout barrel. Her books are, she believes, better put together than she is."

Oh,dear Emily!

Adoro a Emily Dickinson, gosto tanto de seus poemas:

I'm nobody! Who are you?
Are you - Nobody - Too?
Then there's a pair of us!
Don't tell! they'd advertise - you know!

How dreary - to be - Somebody!
How public - like a Frog -
To tell one's name - the livelong June -
to an admiring Bog!

Este também:

I've seen a Dying Eye
Run round and round a Room -
In search of Something - as it seemed -
Then Cloudier become -
And then - obscure with Fog -
And then - be soldered down
Without disclosing what it be
'Twere blessed to have seen -

domingo, julho 15, 2007

Como acabar de uma vez por todas com a cultura - Woody Allen

Descobri Woody Allen como escritor recentemente, quando li um dos artigos que ele escreveu para a revista New Yorker no qual mistura teorias filosóficas e dietas. Eu o achei extremamente divertido, um exemplo da típica ironia woodyalleniana e fiquei feliz ao encontrar uma coletânea com outros artigos em um livro bem velhinho, publicado pela primeira vez em 1974.

O. compra livros "curiosos", então tive que ler tudo em espanhol.

Em "Como acabar de uma vez por todas com a cultura" Allen satiriza tudo e todos, desde a psiquiatria, biografia, revoluções, filosofia até o cinema e a máfia. Achei alguns artigos melhores do que outros, acho que há algumas tiradas que fazem mais sentido se você é americano ou judeu, mas no geral, é uma leitura bem interessante e que flui rápido. Eis um trecho do artigo "Como acabar com as revoluções na América Latina", os revolucionários estão na selva e um deles escreve um diário da campanha:

"10 de julho: Hoje foi, em linhas gerais, um bom dia levando em consideração que os homens de Arroyo nos emboscaram e quase nos liquidaram. Em parte, a culpa foi minha, porque revelei nossa posição ao invocar a Santíssima Trindade aos berros quando uma tarântula subiu por minha perna. Durante alguns segundos, não consegui me livrar da tenaz da maldita aranha enquanto ela abria caminho nas secretas profundezas de minha roupa fazendo com que eu corresse como um louco até o rio e me jogasse nele, o que me pareceu que durou três quartos de hora. Pouco depois, os soldados de Arroyo abriram fogo sobre nós. Lutamos com valentia, embora a surpresa tenha criado uma leve desorganização e durante os primeiros dez minutos nossos homens tenham atirado uns nos outros. Mesmo Vargas se salvou por um fio da catástrofe quando uma granada aterrissou a seus pés. Ele ordenou que me jogasse sobre ela. Consciente de que somente ele era indispensável para nossa causa, eu o fiz. O destino quis que a granada não explodisse, e saí inteiro do incidente com apenas um ligeiro tremor e a incapacidade de adormecer a menos que alguém segure uma de minhas mãos."


quarta-feira, julho 11, 2007

Nova lista de livros para ler

Duas vezes por ano, eu tenho que dar uma geral na edícula que fica do lado da casa. Lá estão parte de nossos livros e alguma "bagunça" (atualmente parece haver mais bagunça do que livros), a tarefa consiste em limpar as prateleiras das estantes e colocar bolinhas de naftalina em cada uma delas, atrás dos livros, passei metade do dia fazendo isso, a naftalina acabou e preciso comprar mais, falta bastante para terminar e agora o trabalho vai mais devagar, porque a naftalina impregna tudo e não posso ficar lá dentro por muito tempo. (Não quero ser encontrada de costas junto com as baratas!) Sempre que faço a limpeza encontro algo que sinto vontade de ler, estes entraram na fila:

After the quake do Murakami, contos sobre o terremoto de Kobe.
Um livro do Woody Allen em espanhol, língua em que não gosto de ler, mas O. às vezes compra coisas do arco-da-velha, como alguns livros do Kafka em italiano. Mamma mia!
O processo do Kafka em alemão (quero ver se meu curso está adiantando algo)
Precision and Soul, um livro de ensaios do Musil.

quinta-feira, junho 28, 2007

Gargantua e Pantagruel

Estou lendo um volume das obras completas de Rabelais que O. comprou por um bom preço em um sebo virtual fora do país. Sempre tive curiosidade em saber quem eram Gargantua e Pantagruel e agora já sei! São dois gigantes memoráveis e suas histórias são pontilhadas por grandes comilanças, bebedeiras homéricas e episódios escatológicos. Por exemplo, Gargantua, filho de Grandgousier e pai de Pantagruel, nasce logo após sua mãe ter um problema intestinal por ter comido muitas tripas, sem falar que Gargantua afoga uma tropa de inimigos após aliviar sua bexiga...

As histórias são divertidas e deveriam ser ainda mais interessantes na época em que foram escritas, pois contêm uma sátira impiedosa das instituições públicas e eclesiásticas da época (séc. XVI). Estou lendo em francês, mas como Rabelais inventa muitas palavras e brinca com umas tantas outras, acho que não tiro todo o proveito que poderia da leitura. Traduzir os cinco livros que constituem toda a história de Gargantua e Pantagruel não deve ser uma tarefa fácil, imagino que seja o equivalente a traduzir Grande Sertão: Veredas, do Guimarães Rosa para outra língua (o que já foi feito).

(Descobri que há uma tradução para o português aqui, mas não sei quem é seu tradutor. )

Achei divertidíssima a relação de livros que Rabelais diz existir na biblioteca de uma abadia, ele tira um tremendo sarro da produção literária e interesses intelectuais dos "doutos" de sua época, os meus títulos preferidos são:

"Como tirar profiterolles das indulgências"
"A quimera zumbindo no vazio é capaz de devorar as segundas intenções?"
"Contra aqueles que dizem que a mula do Papa só come nas suas horas"
"Os devaneios dos casos de consciência"
"O interesse do traseiro na cirurgia"
.
.
.
etc.


quinta-feira, junho 14, 2007

After Dark - Haruki Murakami

Este é o último livro traduzido para o inglês do Murakami. Infelizmente, ele durou pouco, eu o li em duas noites. O livro não chega a ser um romance, é quase uma coleção de crônicas sobre personagens que se cruzam em uma noite em Tóquio: uma garota que passa o tempo lendo em redes de fast food ou bares, um rapaz que toca trombone, uma prostituta chinesa espancada e seu agressor, a gerente de um love hotel e ex-pugilista, uma modelo que dorme. O narrador nos conduz às cenas como se dirigisse um filme, ouvimos conversas, nossos olhares são conduzidos para closes e detalhes alheios aos personagens. Há jazz, muito jazz, como trilha sonora. A sensação é a de que estamos diante de um misto de Short Cuts com um filme noir. A cidade também participa da história como um organismo vivo, mas indiferente aos acontecimentos e vidas de seus habitantes.
Murakami gosta de experimentar novas técnicas de narração, ele parece se divertir com isso. Como muitos outros de seus fãs, acho que o livro não apresenta o autor em sua melhor forma, mas é bom e Murakami continua sendo um de meus autores favoritos.


terça-feira, junho 05, 2007

Anna Karenina - Tolstoi

Terminei de ler Anna Karenina ontem. Uma obra magnífica! Nunca tinha lido nada de Tolstoi antes e fiquei de queixo caído com a maneira como ele consegue criar personagens e descrever seus estados de alma. A história não é apenas sobre o adultério de Anna, é um retrato da Rússia na época em que Tolstoi escreveu seu romance. Ao contrário de Dostoievsky, cujas obras geralmente tratam das classes trabalhadoras ou menos favorecidas da sociedade, Tolstoi escreve sobre sua própria classe, a aristocracia, sem deixar de criticá-la.
Anna é uma mulher apaixonada, ciumenta, que se casou por conveniência e que se apaixona perdidamente por Vonskri. Em nome de seu amor, ela deixa tudo para viver com seu amante. Por causa de seu caráter apaixonado e de seu medo de não ser mais amada por Vonskri, ela toma atitudes desesperadas que culminam em seu suicídio.
Apesar do título, o livro não trata apenas de de Anna e de seu relacionamento, mas também do amor entre Levine (alter ego do autor) e Kitty e de seu círculo familiar, bem como das contradições internas de cada um de seus personagens.
Ah, os clássicos são clássicos por alguma razão!


segunda-feira, maio 07, 2007

Em busca do tempo perdido - No caminho de Swan

Talvez alguns livros realmente devam ser lidos em determinadas épocas de nossas vidas, ao menos para mim, esse foi o caso com Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, obra que narra as memórias do autor desde sua infância, composta de sete volumes. Todo mundo falava tanto desse autor francês, sempre lia elogios à sua obra e, no entanto, quando peguei o primeiro volume, "No caminho de Swan", e o li, achei tão enfadonho! Parei no começo do segundo volume, "À sombra das raparigas em flor", e o esqueci por completo. Há alguns anos atrás, resolvi fazer um curso de literatura em uma escola de francês apenas para melhorar o vocabulário e manter contato com a língua, a obra a ser lida era "Sodoma e Gomorra", se não me engano, o quarto volume de Em Busca do Tempo Perdido. Daquela vez, fui conquistada por Proust e li todos os volumes, um atrás do outro! Ah, as descrições de Combray e Balbec, cidades nas quais o autor respectivamente passou sua infância e suas férias à beira-mar, são belíssimas! A riqueza de detalhes e composição dos personagens são invejáveis!

No caminho de Swan
, À Sombra das raparigas em flor e Sodoma e Gomorra são os volumes de que mais gosto, mas a obra toda é muito boa!

Terminei de reler o No caminho de Swan esta semana, este é finalzinho do livro:

"Os lugares que conhecemos pertencem apenas ao mundo do espaço no qual os situamos por uma questão de comodidade. Eles não passavam de uma fatia ínfima entre as impressões contíguas que formavam nossa vida então, a lembrança de uma certa imagem é apenas o pesar de um certo instante; e as casas, as ruas, as avenidas, são fugitivas, hélas, como os anos."

*Há traduções muito boas para o português feitas por Carlos Drummond de Andrade e Mário Quintana!


domingo, maio 06, 2007

Questionário literário

(Respondi este meme no Kafka, mas como ele é sobre livros...)

A querida Elvira da Tasca me convidou a responder este questionário sobre livros, como sou apaixonada pela literatura e gosto de memes, eis minhas respostas (em português, pois meu francês anda enferrujado...):

Os 4 livros de minha infância:

Os colegas de Lygia Bojunga Nunes, li este livro infantil com uma prima em uma viagem ao litoral norte de SP, antes de dormir, cada uma de nós lia um pedaço, como ela se cansou, li o final sozinha. Relido várias vezes.
Monteiro Lobato: Li todas as histórias do Sítio do Pica-pau Amarelo. É uma pena que as crianças prefiram assistir televisão hoje em dia...
Contos de Hans Christian Andersen: como a Elvira, eu também adorava os contos de Andersen, eles não são alegres, ao contrário, muitas vezes, são sombrios, mas muito interessantes. Minha história favorita era a "Rainha da Neve".
Estórias e lendas brasileiras contadas pelo Arrelia: uma coletânea de contos e lendas brasileiros divididos de acordo com suas regiões de origem narrados pelo palhaço Arrelia. Histórias sobre o Currupira, Boitatá, Mãe d'água, boto... Não encontrei referência para a coletânea :(


Os 4 escritores que eu lerei e relerei:

Emily Dickinson: Adoro seus poemas sensíveis e cheios de beleza.
Fernando Pessoa: sem comentários!
Marcel Proust: Estou relendo o primeiro volume de Em busca do tempo perdido, algumas de suas descrições de Balbec e de Combray são inesquecíveis...
Yasunari Kawabata: mais uma coincidência com as resposta da Elvira... Yasunari Kawabata é um autor japonês de escrita ímpar. Gosto de pensar que seus textos são compostos de pequenos haikais.

Os 4 autores que não comprarei ou tomarei mais emprestado:

Paulo Coelho: Oh! Ele um dos escritores que aparece constantemente neste item! rs Bem, ele serve para distrair, mas está na categoria de auto-ajuda, não de literatura... Só invejo sua capacidade de fazer dinheiro...
Sidney Sheldon: Hum.. Esta parte do questionário deveria ser suprimida, pois respondê-la me deixa muuuuito embaraçada. Mas vamos lá, li muito Sidney Sheldon quando era adolescente, fazer o quê?
J.J. Benítez : Confesso, li quase toda a Operação Cavalo de Tróia, fiquei esperando a conclusão, mas ela saiu quando eu não estava mais interessada...
Anne Rice: Meu Deus! A humilhação continua! Li todos os livros sobre o vampiro Lestat, alguns sobre bruxas, mas não cheguei à Múmia...

Os 4 livros que eu levaria para uma ilha deserta:

Don Quijote de la Mancha de Cervantes: Don Quijote (ou Quixote) e Sancho Pança protagonizam a mais bela história de amizade e amor que conheço, eles são os personagens mais humanos de toda a literatura: são mesquinhos, ignorantes, geralmente ridículos, mas capazes de grandes demonstrações de amizade e bondade.
As mil e uma noites: adoro suas histórias com perfumes e sabores orientais...
Contos de Genji de Murasaki Shikibu: há anos estou para me atracar com esse livro, uma espécie de diário escrito por uma cortesã no Japão feudal.
Trilogia do Cairo de Naguib Mahfuz: ela conta a história de várias gerações de uma família no Cairo entre a primeira Guerra Mundial e a queda da monarquia no Egito, maravilhosa.

As 4 (x4) últimas palavras de meu livro preferido (também como a Elvira é a última estrofe de um de meus poemas favoritos de Pessoa, Hora Absurda:)

"O que é que me tortura?... Se até a tua face calma
Só me enche de tédios e de ópios de ócios medonhos...
Não sei... Eu sou um doido que estranha a sua própria alma...
Eu fui amado em efígie num país para além dos sonhos..."

Os 4 (+4) primeiros livros de minha lista de (re)leitura:

Anna Karenina, Tolstoi
Gargantua e Pantagruel, Rabelais
Tu rostro mañana, Javier Marías
After Dark, Haruki Murakami (Eba! Ainda há Murakamis para ler! A tradução americana será lançada este mês)

Para reler:

Kafka on the shore, Haruki Murakami
Kokoro, Natsume Soseki
Cem anos de solidão, Gabriel Garcia Marquez
A cor púrpura, Alice Walker

Este meme está aberto a todos os amantes da literatura que quiserem respondê-lo!

sábado, maio 05, 2007

Adorei!

as respostas da karen para o questionário literário que está rolando por aí!
vejam aqui.

segunda-feira, abril 30, 2007

L'art du roman (A arte do romance) - Milan Kundera

A arte do Romance é um dos primeiros livros de ensaios e reflexões de Kundera, o seguinte é Testamentos Traídos, A Cortina é o último. Agora posso dizer que li todos. Gosto do Kundera como escritor, li vários de seus romances e me lembro de tê-los achado bons, mas se me perguntarem o enredo de qualquer um deles, não conseguiria contar nada! Que coisa feia, não é mesmo?
O Kundera ensaísta não se cansa de comentar os autores e obras de que gosta e fazem parte sua formação como escritor: Kafka, Rabelais, Cervantes, Flaubert, Tolstoi, Gombrowics, Hermann Broch... Ele sempre os usa como exemplos do que seria uma grande criação literária. Ele fala das traduções, que se revelam quase sempre filhos infiéis, pois os tradutores gostam de criar expressões e de mudar palavras de acordo com o que julgam soar melhor, fala de seu próprio processo criativo, de como seus romances podem ser comparados a composições musicais, aliás, Kundera estudou música durante muito tempo antes de se tornar escritor e seu pai também era músico. Crítica literária de peso, boa crítica de época e de gostos.